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19 de setembro de 2017
I Fórum de Mulheres do CIGRÉ-Brasil - Entrevista com Flavia Serran

Uma das características dos fóruns de mulheres que já ocorreram no CIGRÉ é o relato de trajetórias profissionais e pessoais das mulheres neste contexto, majoritariamente masculino, do setor elétrico.

Daí que a comissão organizadora do I Fórum de Mulheres do CIGRÉ-Brasil que ocorrerá em outubro, em Curitiba, ao longo do XXIV SNPTEE, tenha decidido dar início a esse processo revelando a “prata da casa”: a atual secretária executiva do CIGRÉ-Brasil, Flavia Serran, que há 28 anos milita nessa área e traz, na sua trajetória, a história recente da evolução do setor elétrico no Brasil, além da marca feminina de quem teve que conciliar trabalho intenso dentro e fora de uma casa com três filhas.


Como foi sua entrada no setor elétrico?

Logo depois que eu me formei, fui trabalhar em uma empresa de consultoria (a Geopetro) que estava começando a elaborar Estudos de Impacto Ambiental, por conta da então recente Resolução do CONAMA de 1986. Em seguida, ainda nessa empresa, comecei o mestrado em Planejamento Energético na COPPE, um dos primeiros cursos de pós graduação interdisciplinares. No meio do mestrado, participei de um processo seletivo e entrei na Eletrobras para trabalhar na área de Meio Ambiente, recém implantada e parte do Departamento de Recursos Hídricos ou de Engenharia. Tinha 25 anos e era o meu segundo emprego. Nessa época, fazíamos o Plano Diretor de Meio Ambiente e minha função era descrever os impactos socais e ambientais dos empreendimentos da região sul. Descrevemos todos os projetos que estavam previstos no Plano Decenal 1990-1999. Fiquei 11 anos, na Eletrobrás, de 1989 a 2000.

Depois dessa primeira etapa de chegada e tomada de conhecimento dos projetos, o foco passou para a avaliação da parte ambiental dos estudos de inventário, viabilidade e projeto básico. O DNAE encaminhava os estudos para a Eletrobrás para avaliação, eram divididos entre as diversas áreas e avaliados. Muita visita de campo para os locais das futuras usinas. O resultado da avaliação era um parecer, quase uma licença, dada por todas as áreas da empresa. Era um trabalho bastante integrado entre as diversas áreas. Em paralelo, começamos o Banco de Dados do Meio Ambiente, que acabou se tornando, depois, o Sistema de Informações para o Planejamento – SIPLAN. O sistema tinha o objetivo de criar uma linguagem comum entre os projetos. Em alguns casos nem a potência instalada era a mesma para as diferentes áreas. Então você perguntava: “a usina tal tem quantos megawatts?” e um dizia “tem 1300”, outro 600, os nomes dos empreendimentos às vezes também eram diferentes, porque um nome era dado no início e, depois, mudava...

Com essa história do Sistema de Informação, nos meus últimos dois anos na Eletrobras, foi criada uma gerência, em que ocupei o cargo da chefia. Nessa época, com 35 anos, tinha que coordenar esse Sistema de Informação. Todas as áreas mandavam as informações, eu checava, uniformizava e disponibilizava pra toda área de planejamento. Esse foi o momento das grandes mudanças do modelo do setor, criação do ONS, mudanças no planejamento e acabei optando por aderir a um dos planos de demissão incentivada, já que muito do que eu fazia e gostava de fazer não ia mais acontecer naquele momento.

Trabalhei, então, de 2000 a 2004 com consultoria. Fui trabalhar em uma consultoria internacional na área de infraestrutura e meio ambiente (Dames & Moore - depois comprada pela URS e, mais recentemente, pela Aecom) e fiquei dois anos fora do setor elétrico, trabalhando com a indústria e com o setor do petróleo. A empresa ficava em Houston, EUA e eu trabalhava de casa. Então pude fazer outros projetos de consultoria independente, principalmente para Mercados de Energia. Foi quando trabalhei com Linhas de Transmissão, fazendo auditoria para o Banco Interamericano e com o sistema de gestão ambiental para uma empresa de distribuição em São Paulo. Foi nessa época que eu fui trabalhar na Mercados/PSR.

Enquanto estava na PSR, a EPE foi criada e, então, fui convidada, pelo presidente, para compor o quadro inicial da empresa responsável por estrutura-la a partir da organização dos concursos e do treinamento do pessoal concursado. Fui a funcionária número 20! Inesquecível porque esse era o meu número na camiseta do time de futebol que tínhamos lá... (rsrs).

E como foi a sua carreira na EPE? Que trabalhos realizou ali?

Se na Eletrobras que tinha um plano de carreira bastante claro, eu cheguei ao cargo de gerência percorrendo as etapas previstas pelo plano, começando da função de analista I (profissional II na época), na EPE já entrei com um cargo de gerência, em 2005, e dei a sorte de passar por todas as áreas. Entrei na área responsável pelos Planos Decenais e de Longo Prazo (minha chefe era a Silvia Helena, hoje coordenadora do C3). Lá pelo meio do caminho, o responsável pela área de Estudos de Viabilidade e Linhas de Transmissão saiu e assumi sua função, subindo de assessor I para assessor II. Um pouco depois, a pessoa que era responsável pelos Inventários (Mírian Nuti, também do CIGRÉ-Brasil) saiu e por um tempo acumulei as duas áreas. Na EPE, logo no início, participei também do primeiro Leilão de Energia (o que foi ótimo), trabalhando principalmente com os projetos de biomassa. Na sequência, com a saída do Superintendente de Meio Ambiente (Ricardo Furtado, também CIGRÉ-Brasil), fui convidada a ocupar o seu cargo.

E como foi a experiência na Superintendência? Quais foram seus principais desafios na função?

Na Superintendência os desafios já não são mais técnicos, são todos gerenciais, uma vez que para a parte técnica a gente conta com a equipe. Por um lado, eu estava muito próxima do nível de decisão, por outro lado, era preciso gerenciar uma equipe de 30 pessoas, todas de profissões diferentes que tinham que concordar entre elas. Talvez na área da engenharia seja mais simples, falam todos a mesma língua, mas eu tinha geógrafo, arquiteto, biólogo, cientista social, advogado, engenheiro... Isso foi muito desafiador, mais do que eu podia imaginar. E um intenso trabalho de negociação externa, com todas as instituições envolvidas, MMA, IBAMA, órgãos estaduais, FUNAI, IPHAN, ICMBio...

E como foi sua passagem para a Neoenergia?

A gente entrou na EPE para ficar três anos, esse era o plano. Mas eu já estava lá há sete. O prazo de estruturação da empresa não foi tão rápido quanto a gente esperava no início. Em 2012 eu achei que já tinha feito a minha parte. Os concursos já tinham sido feitos, os primeiros concursados sendo promovidos para assessores... Eu pensei que já tinha dado a minha cota (e acho que trabalhar nesses cargos é mesmo uma cota... tem muita gente que gosta muito, mas não é onde eu mais gosto de estar...). Comecei a buscar alternativas e estava acontecendo um processo de seleção para Gerente Corporativo de Meio Ambiente na Neoenergia. Passei por um outro processo seletivo e fui trabalhar lá. O que foi totalmente novo porque eles trabalham com as etapas pós-leilão. Até a EPE eu estava no planejamento, daí em diante, do outro lado. A empresa participava dos leilões, construía e operava os projetos. Outra escala. Muito aprendizado. Outro desafio.

Como é que o CIGRÉ entrou na sua vida?

Oficialmente, como associada, a partir de 2007. Quando eu estava na EPE, o Superintendente, meu chefe na época, Ricardo Furtado, insistia muito e, na verdade, quase me obrigou a me associar (rsrs). Ele era o coordenador do C3, de Desempenho Ambiental de Sistemas e era também Chairman de um grupo internacional. Convidou-me para ser secretária do grupo. Uma das minhas primeiras atividades foi participar desse grupo internacional. Antes eu já tinha mandado artigos para o SNPTEE. Acho que o primeiro foi até sobre aquele projeto do Banco de Dados, junto com a Maria Luiza Milazzo (que recentemente retornou ao CIGRÉ-Brasil). Este, acho que foi no SNPTEE que aconteceu em Belém, em 1997. Fiquei no estande da Eletrobras o evento inteiro, apresentando o sistema. Em 2006, um ano antes de me associar ao CIGRÉ-Brasil, fui convidada para ser professora de um minicurso do SMARS em que falei dos Aspectos Ambientais da Transmissão.

Fui rondando o CIGRÉ pelas beiradas, até me associar em 2007. Participei desse grupo internacional, mandei artigos que foram aceitos na Bienal 2008 e 2010 e, em 2012, fui chamada para ser Special Report, e, depois, em2014 assumi a coordenação do C3. No final de 2015, o CIGRÉ abriu um processo de seleção para o novo cargo de Secretário Executivo e, para minha alegria, fui escolhida para ocupar o cargo.

O fato de ser mulher dificultou de alguma forma a sua trajetória no setor?

Eu nunca senti esse problema de ser mulher... Quando eu estava na EPE, por exemplo, fiquei grávida da Clara e fui falar com meu chefe, afinal tinham contratado para um cargo de chefia uma mulher com filhos grandes... Não houve o menor problema e, realmente, não afetou em nada a minha carreira. Fiquei quase seis meses fora e foi tranquilo.

E como é conciliar isso tudo? Ser mãe e ter cargos com tanta demanda e responsabilidade?

Olha uma vez uma pessoa, lá na EPE, falou para mim: “Nossa! Como é que você dá conta?” Aí eu falei: “eu não dou, eu tô sempre devendo em algum lugar”. Não dá pra dar conta... Você faz o melhor possível em tudo quanto é canto e deixa um pedaço capenga em tudo quanto é canto... Você tem que contar com toda a família para assumir o que você não dá conta de fazer e tenta descentralizar o máximo possível no trabalho para quando você não estiver lá, as pessoas conseguirem dar conta sem você. Hoje em dia, começo a pensar essa questão da possibilidade de conciliar casa, trabalho, filhos de outro modo. A gente não consegue conciliar nos padrões estabelecidos. Sim, não dá para ser aquela mãe dos anos 50 que estava em casa, que cuidava do filho que fazia bolo e, ao mesmo tempo, ser um engenheiro dos anos 50 que saía de casa, com tudo pronto, não se preocupava com muito mais, além do trabalho... Com esse padrões não dá mesmo para conciliar, mas é preciso mudar o padrão ou reconhecer que eles, há muito, são outros. Evidente que dá para você ter uma vida extremamente produtiva e que, ao mesmo tempo, é possível criar filhos saudáveis, prontos para a vida e independentes. Você não está sendo uma mãe pior porque não está correspondendo àqueles padrões antigos.

Quando eu respondi a essa pergunta, há anos atrás, eu mesma me coloquei a missão de corresponder, ao mesmo tempo, aos padrões da mãe e do engenheiro dos anos 50. A gente tem que parar de se cobrar aquilo que já não faz mais sentido.

É difícil mesmo, você está sempre assim: “Puxa! Eu queria me dedicar mais ao trabalho!” ou “Puxa! Eu queria ficar mais com as crianças...”, mas talvez seja porque a gente esteja numa fase de transição e de adaptação necessária do mundo do trabalho. Talvez a gente devesse trabalhar mais em casa ou ficar menos tempo à disposição do trabalho, aproveitando os suportes tecnológicos, por exemplo, pra a gente – homens e mulheres do século XXI - lidar melhor com essa vida.



Natasha de Decco e Flávia Salgado
5/4/2017