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20 de setembro de 2018
Conselheiros do CIGRÉ-Brasil: José Henrique Machado Fernandes

Seus 39 anos de contribuição à Eletronorte e sua ativa colaboração ao CIGRÉ-Brasil

Nascido em Itajubá, José Henrique Machado Fernandes desde menino sonhava em ser engenheiro eletricista como os tios e primos, envolvidos com a conceituada universidade da cidade. Será, no entanto, em Brasília, o local do seu estudo e do exercício da sua função na engenharia da Eletronorte e a imensa complexidade dos seus empreendimentos amazônicos, por quase quarenta anos.

Secretário e coordenador de Comitê de Estudos, diretor e presidente do CIGRÉ-Brasil e da Região Ibero-americana do CIGRE, José Henrique traz, em sua trajetória, a memória recente da instituição e do setor elétrico brasileiro, em pleno momento de mudança.

 

Como foi a sua entrada no setor elétrico e o desenvolvimento de sua carreira na área de planejamento da Eletronorte?

Desde a minha juventude sempre fui muito empolgado com a ideia de estudar Engenharia Elétrica, isso porque, apesar de estar em Brasília desde os meus oito anos de idade, sempre voltava com meus pais para Itajubá, onde nasci e onde moravam meus avós, além de tios e primos que estudavam e trabalhavam na famosa faculdade de Engenharia Elétrica de lá. Acabei ingressando na Universidade de Brasília e, em dezembro de 1978, quando me formei em Engenharia Elétrica, fui convidado a trabalhar na Eletronorte por alguns professores da UnB que também eram engenheiros da empresa.  

Na Eletronorte tive grandes oportunidades. Comecei como engenheiro na área de Planejamento, depois fui convidado a ser gerente da Divisão de Estudos de Equipamentos, onde comecei a me familiarizar com as Linhas de Transmissão e também com estudos de transitórios eletromagnéticos. Fui gerente do departamento de Planejamento Elétrico, superintendente do departamento de Planejamento e Expansão e, na sequência, trabalhei como assistente do diretor de Planejamento e Engenharia, por muitos anos. Nesses últimos tempos, fui convidado a criar a área de Coordenação da Implantação de Empreendimentos da Eletronorte.

Na Eletrobras Eletronorte por tantos anos, o senhor destacaria um ou mais projetos que tenha participado?

Quando comecei nós tínhamos uma Amazônia toda para desenvolver!  Naquela época, o mapa do Brasil era dividido entre as empresas da Eletrobras: a Eletronorte cuidava da Amazônia Legal, a CHESF do nordeste, Furnas do centro-oeste, a Eletrosul da região sul. Nossa região estava isolada do Sistema Elétrico Brasileiro, com uma área de extensão equivalente a 60% do território nacional e apenas 10% da carga ou demanda, o que demonstrava uma grande esparsidade de cargas e indicava que se precisava de um tratamento especial. Além disso, a Amazônia também se caracteriza pela imensa biodiversidade e por áreas de preservação ambiental muito grandes, tudo isso associado a poucas rodovias e meios de penetração. Foi muito desafiador ao longo desses anos, ir esticando linhas de transmissão e implantando usinas, nesse contexto

A gente levava energia para locais, às vezes capitais de estado, que viviam à base de geradores à diesel. Chegávamos, então, com a energia hidrelétrica, confiável, o que resultava num surto de progresso. Em muitas inaugurações de subestações, por exemplo, éramos recebidos pela população e pelas autoridades locais, com festa e foguetório. Muitas vezes eles diziam que não estávamos levando apenas energia elétrica, mas a esperança de uma vida melhor, o que nos deixava muito emocionados. Era muito gratificante vermos que  quebrávamos o ciclo: “não tem energia, porque não tem carga e não tem carga, porque não tem energia”. Botamos energia e pagamos para ver: “e se tiver energia, o que acontece?”(sic).  Hoje a gente vê que a região se desenvolveu e está se desenvolvendo.

Daí vieram os projetos de interligação das usinas da região, como o sistema de transmissão associado a UHE Tucuruí, das inter-regionais, como foi a ligação Cuiabá-MT, a interligação do norte do Mato Grosso e da capital de Rondônia, entre os estados do Acre e Rondônia, a interligação da Região Norte com a Nordeste e, no final da década de 90, a interligação Norte-Sul. Nas últimas décadas, participamos de projetos em parceria com a iniciativa privada, nas interligações em corrente contínua do Rio Madeira e, também, do sistema da Usina de Belo Monte.

Foi um grande desafio participar da expansão de todas essas interligações e suas subestações, desenvolvendo uma engenharia aplicada à região.  Com poucos recursos éramos ao mesmo tempo, (como eu costumava dizer para o pessoal do Planejamento na Eletronorte) a EPE – Empresa de Pesquisa Energética - e o ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico - daqueles sistemas isolados. Isso porque planejávamos em um momento em que a passagem da ideia à execução era muito rápida. Nossa responsabilidade era muito grande. Imaginávamos torres compactas e fazíamos torres compactas, imaginávamos subestações simplificadas e fazíamos as subestações simplificadas, pensávamos em atendimento de pequenas cargas com utilização dos cabo para-raios e fazíamos.

Além disso, as transmissões eram longas, centenas ou milhares de quilômetros, o que fazia com que nossos projetos fossem otimizados e adequados inclusive para a questão da preservação ambiental.

Na interligação do Brasil com a Venezuela, por exemplo, procuramos aproveitar o traçado de uma rodovia estadual asfaltada que já existia ali. Pensamos em construir a linha de transmissão ao seu lado, aproveitando a faixa de domínio da estrada que passava por várias reservas indígenas. Quando fomos conversar com os indígenas para dizer que iríamos acrescentar essa linha ao contrato e ao acordo que teria sido feito na ocasião da construção da estrada, fomos surpreendidos com a notícia de que eles nunca tinham sido procurados e de que éramos os primeiros a fazê-lo.

Nós, então, regularizamos e pagamos todo o direito de passagem. Como contrapartida, atendemos a demanda de promover a “desintrusão” de mais de 100 propriedades irregulares adquirindo as terras dos posseiros e devolvendo-as à posse dos indígenas. Além disso, a área de Meio Ambiente da Eletronorte desenvolveu junto àquela população toda uma metodologia de construção de linhas de transmissão, indicando como os trabalhadores deviam se portar: não tirar fotos, terminar o dia de trabalho retirando todo o rejeito, etc, o que foi muito importante para que nós tivéssemos, ali, uma convivência adequada.

Em 1992, quando já era membro do Grupo de Linhas Aéreas do CIGRE Internacional pude trazer algumas experiências da área do Meio Ambiente que estavam acontecendo na Europa. Chamava a minha atenção, em uma das publicações do CIGRE, o tratamento de our neighbours (nossos vizinhos), às pessoas que viviam ao longo de uma linha de transmissão.

De certa forma, esse conceito sempre permeou o meu entendimento. Temos que passar com uma linha de transmissão em comum acordo com as populações locais, até porque senão a linha pode ser vandalizada. Passávamos linhas de grande extensão pela Amazônia, em regiões que não tinham suprimento de energia adequado.

Como fazer, então, para que essas populações não ficassem inimigas da linha de transmissão? Nesse sentido elaboramos um trabalho pioneiro que se chamava Planejamento, Projeto, Construção e Operação de Linhas de Transmissão tendo em conta o Meio Ambiente que procurava estabelecer procedimentos, práticas e relações de boa vizinhança tendo em conta as questões socioambientais, antes mesmo daquelas exigências que vieram nos anos seguintes à ECO 92.

O senhor pôde assistir de dentro da maior estatal brasileira de energia elétrica, a Eletrobras, a sucessão de privatizações e a redução gradual das funções das concessionárias estatais que teve início nos anos 90. Qual a sua percepção deste processo?

A implantação de um novo modelo do setor elétrico foi iniciada em meados da década de 90 e ampliada a partir de 2004. Tínhamos um ambiente cooperativo entre empresas estatais, em que não havia penalidades para o descumprimento dos prazos e a remuneração era garantida e passamos a um ambiente competitivo, com a convivência entre empresas estatais e privadas, prazos para implantação de empreendimentos que nos deixavam sujeitos a multas e perdas de receitas, além da própria receita passar a ser definida pela ANEEL.

Inicialmente, na Eletronorte, tivemos dificuldade em perceber essa mudança, porque ainda não podíamos participar dos leilões implantados, ainda que fôssemos, naquele momento, a “engenharia do proprietário” de alguns dos empreendimentos leiloados. Uma empresa ganhava o empreendimento no leilão e nos contratava para que realizássemos o projeto para a Linha e desenvolvêssemos várias questões que os ajudassem a entrar na região amazônica.

Foi uma etapa de grandes mudanças que vivenciei com muita esperança e otimismo, achando que vivíamos a passagem de um modelo do passado que deixava lugar para um novo modelo, ao qual era preciso que nos adaptássemos. Costumava dar para minha equipe o exemplo do sapo que colocado em uma vasilha em que a água fosse aquecida aos poucos, acabaria morrendo, ao contrário do que aconteceria se o jogássemos diretamente na água quente, de onde escaparia. Era preciso notar que a água estava esquentando, saber que precisávamos fazer mudanças nos nossos processos de trabalho, na nossa forma de planejar, projetar e construir sistemas de transmissão. Naquele momento pude participar da nova  área de Coordenação de Empreendimentos que implantava metodologias para atender aos prazos, a despeito de todo arcabouço legal que faz a empresa estatal muito diferente da iniciativa privada. Foi muito interessante preparar a empresa e as suas diversas áreas para trabalhar segundo esse novo modelo. Com a implantação da área de Escritório de Projetos conseguimos sair de grandes atrasos para antecipações ou pequenos atrasos, evitando multas e perdas de receita e colocando a Eletronorte em um patamar competitivo em relação à iniciativa privada.

Todo esse processo foi muito importante porque, hoje, principalmente na área de Linha de Transmissão, os empreendimentos são todos concedidos por leilão e, desde o momento em que a Eletronorte pode participar dos leilões, por permissão do acionista majoritário que é a Eletrobras, a empresa tem conseguido se organizar com muita competência, seja de forma autônoma, seja em parcerias com a iniciativa privada. 

Destas últimas experiências veio, também, o ensinamento sobre a iniciativa privada e seus métodos. Foi quando pude ver que existem competências em ambos os lados e pude entender melhor como se dá a gestão dos empreendimentos privados, assim como mostrar-lhes que a filosofia da Eletronorte estava ligada à perspectiva de implantar empreendimentos que seriam por ela  operados, por toda uma vida, daí a qualidade ser, para nós, um requisito fundamental.  Era recorrente essa dicotomia, esse antagonismo com a iniciativa privada, mas conseguíamos compor e chegar ao melhor para as duas partes.

 

O sr. foi presidente do CIGRÉ-Brasil de 2007 a 2011, além de ter composto a diretoria nas gestões 1999-2003 e 2003-2007, poderia nos contar como tem sido a sua relação com a instituição e o que lhe pareceu prioritário nos períodos em que esteve a sua frente?

Como engenheiro da Eletronorte, no final da década de 80, comecei a ver que muitos trabalhos e papers que consultava vinham do CIGRE. Procurei, então, informação e acabei entrando para o Comitê de Linhas Aéreas. Naquela época o coordenador do Comitê era o engenheiro João Félix Nolasco, o grande incentivador da minha participação no CIGRÉ e de quem me tornei um grande amigo. Participava das reuniões satisfeito porque era um ambiente muito interessante em que encontrava autores que eu lia e onde muitas das dúvidas e problemas que eu tinha, encontravam solução na experiência de colegas que, por sua vez, também se interessavam pela minha experiência. Com a saída do secretário do grupo de Linhas de Transmissão, fui convidado a ocupar seu posto, onde fiquei até 1998 até que, terminado o mandato de João Nolasco, fui convidado a ser coordenador do Comitê de Estudos de Linhas de Transmissão. Para assumir o novo cargo em 1988, onde fiquei até 2008, fui a minha primeira Bienal. Nesse período, Joãozinho, outro grande amigo e incentivador, convidou-me para o cargo de secretário do CIGRÉ-Brasil.

Naquela época o CIGRÉ-Brasil não tinha uma sede e ficava num espaço gentilmente cedido pelo CEPEL, com apenas dois funcionários.  Estivemos empenhados nesta transição para uma sede própria. Foi preciso fazer muitas contas porque a sede traria vantagens, mas também custos implícitos. Para isto, a gente contou com grande otimismo dos colegas, em particular o do Joãozinho que conduziu o processo com grande maestria. O importante é que naquela época tínhamos 200 a 300 sócios e, ao longo desses 12 anos, deixamos o CIGRÉ-Brasil com mais de 1000 sócios, sendo o primeiro Comitê a alcançar esta marca e possuir o maior número de sócios do mundo, posição em que ficamos por anos e que foi resultado de muito trabalho.

Para finalizar, a mensagem pela qual fiquei conhecido e acho importante passar para todas as pessoas que militam no CIGRÉ-Brasil - seus conselheiros, coordenadores e membros - é que o importante no CIGRÉ é a ideia do trabalho voluntário que, por sua vez, exige responsabilidade e profissionalismo das pessoas para que tenha resultados efetivos, ou seja, o trabalho é voluntário, mas é trabalho.

Nesses anos todos, com certeza ganhei muito mais do que dei: fiz amigos para a eternidade, participei de momentos emocionantes, ampliei enormemente meu conhecimento na área de energia elétrica de linhas de transmissão e do sistema elétrico de uma forma geral e, também, aprendi, desde o início a conviver com as diferenças. 

Integrante dos Comitês Organizadores dos maiores eventos do CIGRÉ-Brasil, o senhor tem participado ativamente da organização do SNPTEE – Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica, de caráter nacional e do ERIAC – Encontro Regional Iberoamericano. Na sua opinião, qual a importância desses eventos para o setor elétrico brasileiro?

Os eventos de uma forma geral são importantes para o setor elétrico brasileiro. É uma oportunidade única de compartilhar conhecimento e de aprimorar nossos trabalhos. Costumo dizer que é uma consultoria de graça. Muitas vezes você vai para eventos como o SNPTEE, com vários problemas na sua empresa e quando você retorna tem soluções para muitos deles ou fez um networking e conheceu pessoas debruçadas sobre as mesmas questões que, agora, podem ser acessadas facilmente. Os eventos são, também, locais de trocas de diferentes vivências que já tivemos em outros encontros nacionais e internacionais. Assim, para mim é uma grande satisfação trabalhar para que esses eventos sejam realizados.

No que tange aos ERIACs, lembro que antes havia os ERLACs – Encontros Regionais Latino-americanos do CIGRÉ - que já tinham se iniciado na década de 90. O ERLAC agregava os Comitês do Brasil, da Argentina e do Paraguai e acontecia sempre em rodízio na região das três fronteiras. No início dos anos 2000, no entanto, com Joãozinho na presidência, o CIGRE Internacional estabeleceu a possibilidade da criação de regiões de forma a ampliar a divulgação e criar sinergias para o maior desenvolvimento do CIGRE. Foi, nesse contexto, e com Joãozinho à frente, que os Comitês de Portugal e da Espanha registraram seu interesse em participar da região ibero-americana. Depois de muito debate, da LARC (Latinoamerican Region of CIGRE) criou-se a RIAC - Região Ibero-americana do CIGRÉ.

Sempre fui um entusiasta da ideia de que nós, sulamericanos e centroamericanos, pudéssemos nos organizar, apoiando-nos e servindo mutuamente como modelo, de forma a promover o crescimento do CIGRE, na América  Latina. Esse foi o ideal que nos moveu e nos ajudou muito nas reuniões de compartilhamento de procedimentos que, por sua vez, tem resultado no crescimento do CIGRÉ na região ibero-americana, com a criação do Comitê Chileno, do Comitê Andino que inclui o Peru, a Bolívia, a Colômbia e o Equador e, mais recentemente, a criação do Comitê da Colômbia, além do Comitê Peruano, em vias de criação.

De malas prontas para a próxima CIGRE Session, em Paris, quais são as suas expectativas para a 47ª edição desse evento?

É sempre uma emoção renovada. Já vai dando aquela ansiedade, aquele friozinho na barriga da gente. A gente fica pensando que contribuição levar, os amigos a rever, que pontos debater com os colegas, no cafezinho, no almoço... É realmente um momento ímpar que se passa em uma Bienal. É intenso, na medida em que ficamos dias seguidos imersos em outro idioma. Cada vez mais a gente nota que esse sentimento é compartilhado por pessoas do mundo todo. Já se pensou que os processos de privatização dos setores elétricos de vários países implicaria em uma queda no interesse de participação no CIGRE, ledo engano, todo mundo quer compartilhar conhecimento. Espero que as Bienais cresçam e que a delegação brasileira seja cada vez maior, porque os benefícios são como uma bola de neve: as pessoas voltam de lá com plena consciência de que deram um up grade significativo em suas carreiras, que deixaram de ser regionais para serem mundiais, na medida em que passam a ter colegas da África do Sul, do Canadá, dos Estados Unidos. Além disso, as Bienais são formadoras de tendências. Muito do que acontece lá, acaba vindo depois para o Brasil. Todos ganham, porque a delegação que vai levando as suas contribuições, quando volta, compartilha com os colegas brasileiros o que teve oportunidade de ver e aprender lá. A atual delegação do CIGRÉ-Brasil é composta também por jovens e mulheres que ainda não tinham tido essa oportunidade. Congratulo a diretoria do CIGRÉ-Brasil pela importância e o apoio que está dando à delegação que está a caminho! Com certeza vai ser uma relação de custo-benefício muito muito favorável!

 

 

 

 

 

 

 



CIGRÉ-Brasil
15/8/2018