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21 de outubro de 2018
Conselheiros do CIGRÉ-Brasil - Entrevista com Sérgio do Espírito Santo

Conselheiro e membro do Comitê de Estudos B4 de Elos de Corrente Contínua e Eletrônica de Potência, Sérgio do Espírito Santo foi também diretor administrativo da gestão 2011-2015 do CIGRE-Brasil. Engenheiro de Furnas há 34 anos, recebeu em 2011, o título de Membro Honorário e, dois anos depois, o prêmio internacional Technical Committee Award pelo conjunto da sua colaboração com a instituição.

Trata-se, aqui, de mais uma entrevista da série Conselheiros do CIGRE-Brasil que pretende apresentar aos(às) associados(as) e aos(às) interessado(as) em conhecer mais a instituição, os nomes e as trajetórias daqueles que compõem essa importante instância de decisão que é o Conselho de Administração. Composto pelos ex-presidentes, por representantes das empresas organizadoras do SNPTEE e por membros eleitos como representantes dos diferentes grupos de associados, como explica o próprio Sérgio do Espírito Santo, abaixo, o Conselho traz uma amostragem expressiva de profissionais que carregam a memória recente do setor elétrico brasileiro.

Por esse motivo, convidamos a todos para que além da entrevista abaixo, vejam também aquelas que já foram publicadas com os conselheiros Joãozinho (João Batista Guimarães Ferreira da Silva) e  José Henrique Machado Fernandes, ambas disponíveis em nosso site ou nas newsletters de junho e agosto de 2018.

 

O senhor poderia nos contar como se deu a sua opção pela Engenharia Elétrica?

A matemática me fascinou desde jovem e por isso era bem sucedido nesta matéria. Naturalmente, quando alguém gosta de um assunto se dedica mais a ele e, consequentemente, acaba tendo mais chance de se sobressair naquele tema. Além disso, eu sempre tive interesse em assuntos de tecnologia. Quero entender como os equipamentos funcionam, o que está sendo desenvolvido, obras existentes e planejadas, etc. Uma outra característica minha é que  sou conservador e sempre que pensava no que ia ser no futuro só conseguia me imaginar nas profissões mais tradicionais, até por uma preocupação com o futuro emprego, o que diminuiu o leque de profissões pelas quais tinha interesse. Portanto, mesmo tendo feito o vestibular muito novo, com 16 anos, não tinha dúvida sobre qual curso queria cursar. Como naquela época o vestibular permitia que o candidato fizesse duas opções,a minha primeira opção foi Engenharia e a segunda, Economia.

Passei para a UFRJ e lá a escolha pelo tipo de Engenharia ocorria apenas ao final do ciclo básico, no segundo ano.  No início, pensava em optar pela Engenharia Elétrica com ênfase em Eletrônica, mas ao longo destes dois anos aumentei o meu conhecimento sobre o Sistema de Potência e me empolguei com este assunto. Portanto, achei que seria muito interessante cursar esta área, inclusive por considerar que, no Brasil, ela apresentava mais oportunidades de trabalho e me daria a chance de  dar retorno  à sociedade pela oportunidade de ter cursado uma universidade federal.

O sr. desenvolveu a sua carreira profissional em Furnas onde, entre outros projetos, foi diretamente responsável pelo Simulador de Corrente Contínua e, posteriormente, sua introdução ao RTDS. Pode nos falar um pouco desses e de outros projetos desenvolvidos na empresa?

No final de 1984 entrei em Furnas para trabalhar na área de Controle do Sistema de Transmissão em Corrente Contínua. O Brasil, na década de 70, tinha iniciado a construção da Usina de Itaipu e do sistema de transmissão necessário para transmitir a energia, sendo Furnas a responsável por este sistema composto por linhas de corrente alternada (AC) e corrente contínua (CC).  O sistema de transmissão em corrente continua era inédito no país utilizando tecnologia que envolve Eletrônica de Potência com sistemas de controle para possibilitar a transmissão da energia.

É expressiva a importância de Itaipu e dos sistemas de transmissão associados para o Sistema Elétrico Brasileiro. São 12.600 MW, sendo metade da energia (6300 MW), transmitida pelo sistema CC e a outra metade transmitida pelo sistema AC.  Se hoje, quase 50 anos depois, estes números ainda são expressivos, imagine naquela época.

Furnas foi obrigada a criar uma estrutura apropriada ao desafio que recebeu. Com isto, montou equipes para estudar, analisar e operar o Sistema CC sendo que eu fiz parte de uma delas. Furnas também necessitava de ferramentas adequadas para a realização destas tarefas.  Dessa forma, surge o Simulador em Tempo-Real de Corrente Continua. Ele tinha sido utilizado pela fabricante, a ASEA, nos testes de fábrica na Suécia para ajustar e garantir o correto desempenho do sistema CC, sendo posteriormente trazido para o Brasil e entregue para Furnas como parte do fornecimento. Por conta da minha área de atuação, desde o início o Simulador foi uma das ferramentas que utilizava nos estudos.  

Todavia, com a evolução da tecnologia, nos anos 90, Furnas busca alternativas para atualizar este simulador  que era um equipamento analógico. Novas opções estavam surgindo no mercado e Furnas acabou decidindo adquirir um Simulador Digital em Tempo-Real que estava em fase de desenvolvimento pelo Manitoba HVDC Research Center, no Canadá.

Neste projeto de atualização do Simulador fiquei responsável por todas as etapas: a especificação,  o teste de fábrica, a instalação e o comissionamento no Brasil. A partir daí aumentou o meu envolvimento com o Simulador de Sistemas Elétricos em Tempo-Real, como ele é denominado em Furnas.

A principal finalidade do Simulador é garantir que o sistema de corrente contínua funcione adequadamente, com altos índices de disponibilidade e confiabilidade, transmitindo até os 6300 MW, sua potência nominal. Isso, por si só, já é muito importante. Vários melhoramentos no sistema de controle original foram possibilitados através de estudos no Simulador, sendo que o último projeto foi um sistema redundante para o controle de corrente, cujo sistema original é analógico e digital e, portanto,  sem redundância. Este foi mais um dos projetos voltados à busca contínua de altos índices de confiabilidade.

Ainda que sejam muito importantes  esses sistemas de transmissão, Furnas é muito maior do que isso com: 20 usinas hidrelétricas, 2 usinas termelétricas, 3 parques eólicos, 70 subestações e mais de 25.000 km em linhas de transmissão. Com a aquisição do Simulador Digital em Tempo-Real vislumbramos que ele poderia ser muito útil na área de proteção, com a realização de testes em malha fechada de sistemas de proteção auxiliando no ajuste dos parâmetros e confirmando a sua adequação. Como o sistema de Furnas utiliza muitos relés de proteção,  havia um campo enorme e ainda inexplorado para nossa atuação, o que poderia ser muito útil não só para a empresa, mas também para todo o Sistema Interligado Nacional. Isto foi muito bem sucedido, tendo ótima aceitação, tanto interna quanto externamente. Chegamos a ser referência mundial neste tipo de teste, no início dos anos 2000, quando atingimos o ápice.

E quanto à sua relação com o CIGRE? Como se deu o seu primeiro contato e seu envolvimento crescente com a instituição a ponto de levá-lo a coordenador do Comitê de Estudos B4 de Elos de Corrente Contínua e Eletrônica de Potência, ao cargo de diretor de administração na gestão 2011-20015 e à atual função de conselheiro de administração?

O meu primeiro contato com o CIGRE foi através de Furnas. O secretário do Comitê de EstudosE B4 de Elos de Corrente Contínua e Eletrônica de Potência era de Furnas e, por motivos pessoais, estava interessado em deixar a posição e buscando, na empresa, possíveis substitutos. Meu chefe, ao ser consultado, pensou em mim e eu informei que teria prazer em colaborar. Antes disto, já tinha participado de alguns eventos organizados pelo CIGRE-Brasil, mas nem tinha me dado conta disto. Aliás, este é um ponto que já foi identificado pela entidade, que está trabalhando fortemente para valorizar a identificação da marca CIGRE-Brasil, que é forte, mas, às vezes, acaba não ficando evidente para os que não tem muito contato com a entidade.

Assumi o posto de Secretário do Comitê de Estudos B4 em 1997 e continuei nesta posição até 2006, quando passei a Coordenador do Comitê e, consequentemente, membro regular brasileiro do Study Committee B4 do CIGRE Internacional. Apenas para deixar mais claro, pois creio que muitos não sabem, os coordenadores de Comitês de Estudos no Brasil assumem também o papel de membros regulares no respectivo Study Committee (SC) do CIGRE Internacional. As vagas de membros regulares são limitadas, mas o Brasil, como um dos maiores Comitês Nacionais do mundo, atrás apenas da China, tem representantes em todos os SC.

Como secretário, creio que consegui cumprir as minhas tarefas que eram essencialmente de suporte e apoio ao Coordenador. Ao assumir a Coordenação do CE, ampliei também a minha participação internacional e passei  a ser membro de Working Group (grupo de trabalho internacional). Aproveitando o bom momento da Corrente Continua no Brasil, com os Projetos do Rio Madeira e, posteriormente, o Projeto de Belo Monte, conseguimos, aos poucos, aumentar a delegação do CE B4 nos eventos anuais internacionais (Sessão Bienal, nos anos pares, e reuniões internacionais, nos anos ímpares), além da nossa participação no B4 internacional.

Em 2009, o Brasil convidou o SC B4 para realizar sua reunião internacional de 2013, no país. Fomos bem sucedidos na disputa com os Estados Unidos. A reunião  foi realizada em Brasília, com visita técnica em Porto Velho. A logística desta visita foi muito complicada e, durante algum tempo, pensamos em transferi-la para Araraquara, onde fica a Estação Inversora da Transmissão do Rio Madeira. Mas decidimos persistir na idéia e o ponto alto da reunião foi a visita às estações conversoras em diferentes estágios de projeto e uma usina com turbinas bulbo (UHE Santo Antônio), o que não é fácil de encontrar em lugar nenhum do mundo.

Em 2011, fui convidado para ser Special Reporter na Sessão Bienal de 2012. Foi um trabalho árduo, mas também muito prazeroso. Ao final, senti-me honrado em conseguir realizar todas as atividades possíveis para um membro regular. Para coroar a minha participação no SC B4, em 2013, fui agraciado com o Technical Committee Award, do que muito me orgulho.

Voltando um pouco no tempo, em 2010, fui convidado a compor a chapa da Diretoria para a gestão 2011-2015 com a função de Diretor de Administração.  A nossa gestão continuou o grande trabalho que vem sendo realizado de longa data pelas Diretorias do CIGRE-Brasil, resultando na entidade que somos hoje. Como pontos de destaque cito a realização do atual Planejamento Estratégico e a aprovação do novo Estatuto. Na área administrativa, atingimos em 2013 o nosso recorde de 1.253 sócios equivalentes. Uma outra prioridade foi a comunicação com os sócios, disponibilizando material técnico de eventos e gerando oportunidades de participação nas diversas atividades do CIGRE-Brasil.

Terminada a nossa gestão, em 2015, fui convidado a participar da atual gestão como membro do Conselho de Administração, onde estou até hoje.

Como diretor, conselheiro e membro da Comissão Técnica do XXV SNPTEE que aspectos lhe parecem fundamentais e  têm sido a sua prioridade na administração do CIGRÉ-Brasil?

Para o bom funcionamento do CIGRE existem alguns desafios. Primeiro, precisa-se gerar oportunidades de participação para os sócios, criando tarefas variadas nas quais os membros possam contribuir de acordo com os seus conhecimentos. Sendo bem sucedido, conseguimos manter os sócios envolvidos com o CIGRÉ e ainda proporcionar interesse de participação naqueles que ainda não são membros.

Nesta questão, os Comitês de Estudos desempenham um papel fundamental para a Entidade. São os maiores geradores de tarefas técnicas e, desta forma, proporcionam oportunidades de participação para as pessoas. A Diretoria atua, neste caso, apoiando e incentivando os Coordenadores, facilitando a sua tarefa.   

Um ponto importante a ser destacado é que se trata de trabalho voluntário, que dá trabalho, como diz o nosso Conselheiro José Henrique e  este equilíbrio não é simples. Por um lado, se não existe cobrança nenhuma, a tarefa provavelmente não é realizada. Por outro lado, se a cobrança é muito forte, provavelmente a tarefa não é realizada e o sócio ainda pode acabar se afastando da Entidade. Isto vale para os diversos níveis. Desde a Diretoria com os Coordenadores de Comitês de Estudos, dos coordenadores com os membros dos Comitês e mesmo entre os Conselheiros e a Diretoria, que, não podemos esquecer, também realiza um trabalho voluntário. Em suma, precisamos manter o foco na execução das tarefas necessárias, mas também manter a harmonia e o bom ambiente, para que as pessoas continuem motivadas a participar e contribuir.

Um outro aspecto é que a participação técnica em uma entidade internacional como o CIGRE acaba gerando necessidade de recursos financeiros. A contribuição nos diversos níveis - comitês de estudos, working groups, etc. - implica na participação em reuniões em diversas partes do mundo, acarretando em despesas de viagem. Para incentivar esta participação, o CIGRE-Brasil oferece uma ajuda financeira para cobrir parte destas despesas. Este programa tem sido muito bem sucedido e a participação brasileira tem sido cada vez mais efetiva. Entretanto, ele só é possível porque a saúde financeira da Entidade é boa. Nos últimos anos, o setor elétrico tem passado por transformações e tem sido um desafio manter a situação financeira e o funcionamento da Entidade no rumo certo. É importante ressaltar que a Entidade tem, além desta, muitas outras despesas para permitir o seu adequado funcionamento. O desequilíbrio da situação financeira seria prejudicial em todos os aspectos. Por conta do momento atual, esta questão tem demandado muita atenção tanto da Diretoria, quanto do Conselho de Administração.

A realização de eventos é a forma mais eficiente para o CIGRE-Brasil cumprir a sua missão de disseminar conhecimento. O SNPTEE é o maior evento brasileiro do setor elétrico. Apesar de ser realizado a cada dois anos, por conta do seu tamanho, as atividades de planejamento e execução são realizadas durante todo o tempo. Quando uma edição está se encerrando, o planejamento da próxima edição já está começando. Na Comissão Técnica, a nossa missão é complementar o trabalho dos Relatores dos Grupos de Estudos, garantindo a qualidade técnica do evento que, ao mesmo tempo, irá atuar como fator decisivo para a realização das futuras edições.

Um ponto importante a ser ressaltado é que um bom resultado financeiro do CIGRE-Brasil é apenas um facilitador para que a Entidade possa cumprir a sua missão de disseminar conhecimento. Este é o real objetivo do CIGRE-Brasil.

Após o término de seu mandato como Conselheiro, quais são os seus planos em relação ao CIGRE-Brasil?

Inicialmente é importante esclarecer como é a composição do Conselho de Administração. Ele é formado por ex-presidentes que têm mandato vitalício, complementado por conselheiros que representam as empresas que participaram da criação da entidade e por elas são indicados, além de conselheiros indicados pela chapa eleita que representam os diversos grupos e segmentos que compõem o CIGRE-Brasil, tais como a Industria, os Serviços, os(as) Sócios(as) Individuais, etc. Neste caso a renovação acontece a cada quatro anos, sendo que o Regulamento permite a reeleição.

No meu caso, fui eleito como Conselheiro para representar os Sócios Individuais, com mandato encerrando em abril do próximo ano. Como a eleição está distante, ainda não existe uma definição se continuarei como Conselheiro representando os Sócios Individuais ou mesmo se assumirei alguma outra posição.

De qualquer modo, por não pertencer ao grupo de ex-presidentes, um dia certamente meu mandato se encerrará. Entretanto, não faço planos de longo prazo, deixando sempre espaço para novas oportunidades que possam surgir.

Independente disto, no CIGRE sou principalmente membro do Comitê de Estudos B4 e isto não vai mudar. Todas as posições que assumi são passageiras e tiveram apenas o intuito de contribuir de alguma forma para as atividades do CIGRE-Brasil.



CIGRÉ-Brasil
11/9/2018