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19 de janeiro de 2019
Conselheiros do CIGRE-Brasil - Entrevista com Paulo Esmeraldo

“Com as conversas em casa, acabei mudando completamente o rumo da minha vida e fui fazer também Engenharia Elétrica. Lá se vão 40 e poucos anos! E a mudança de rumo só veio a me fazer bem!”

Quando menino, Paulo Esmeraldo sonhou em ser médico, mas acabou seguindo os passos do irmão mais velho, engenheiro eletricista, e do pai, engenheiro agrônomo que trabalhava na Eletrobras e entusiasmava o filho com a sua percepção do que viria a ser aquela empresa, nos anos que se seguiram. As conversas em família giravam em torno das negociações com o Paraguai para a construção de Itaipu, uma das maiores usinas hidroelétricas do mundo.

Depois do período de formação e de um estágio na Eletrosul que o levaria a um mestrado nos Estados Unidos, Paulo Cesar Vaz Esmeraldo aliou à intensa vida profissional o trabalho voluntário no CIGRE-Brasil, participando ativamente dos seus grupos de estudo e comitês, da sua diretoria – em que assumiu inclusive a função de diretor-presidente – e do conselho administrativo, ao que se dedica atualmente.

De 1980 a 2005 o senhor se dedicou ao departamento de Planejamento da Transmissão de Furnas. Como foram esses 25 anos de empresa?

Comecei a minha carreira com o estagiário na Eletrosul, quando a empresa ainda estava no Rio de Janeiro. Ali, tive a chance de fazer um mestrado nos Estados Unidos, onde fiquei durante um ano. Nesse ínterim, para ficar mais próxima dos seus empreendimentos, a Eletrosul se mudou para Santa Catarina. De volta ao país e sem intenção de mudar de estado, tive a chance de continuar na Eletrobras indo trabalhar no Cepel, onde fiquei por três anos. Depois, como sempre fui entusiasmado pelo sistema de transmissão de Itaipu, fui trabalhar em um grupo de estudos coordenado pela Eletrobras que contava com a participação de Furnas. Foi a partir dessa experiência que fui convidado a trabalhar ali, onde fiquei por 25 anos. Fiquei no sistema Eletrobrás desde que me formei até a minha saída de Furnas para a EPE, a Empresa de Pesquisas Energética.

Nesse período de Furnas, posso dizer que participei de momentos e estudos importantes sobre o sistema elétrico de transmissão. O próprio sistema de Itaipu que não só é um sistema de corrente contínua, mas também um sistema que opera em tensões de 765 kV até então inéditas no Brasil. Havia também certas peculiaridades, naquele momento, como a aplicação de capacitores-série, além de um conjunto de novidades tecnológicas que foram sendo apresentadas e se tornando oportunidades de crescimento na empresa. Isso porque eu sempre buscava (e busco até hoje) a implantação de novas tecnologias que otimizem e tragam economicidade ao sistema elétrico.

Nesses anos, participei da implantação de grandes projetos como o sistema de Itaipu, da implantação do sistema de linhas de 500 kV de Furnas, dos estudos relacionados à implantação da interligação Norte e Sul, tida como a espinha dorsal do Sistema Interligado Brasileiro, por exemplo. Participei também de pesquisas importantes como a que, em Furnas, levou a  implantação de uma LPNE – Linha de Potência Natural Elevada, concebida para transmitir, em um mesmo corredor, uma maior quantidade de potência quando comparado às soluções convencionais. Essa era uma linha experimental, na região de Seropédica, no estado do Rio de Janeiro, fruto de uma profícua parceria com o Instituto Politécnico de São Petersburgo na Rússia, onde houve intensa transferência de tecnologias avançadas importantes para o Brasil.

Em resumo, os meus 25 anos de Furnas não só foram de formação, mas também da minha afirmação como engenheiro eletricista. Participei de projetos importantes e sempre busquei, junto aos meus colegas, mais jovens ou mais velhos, essa transferência de conhecimento. Sempre procurei passar aquilo que aprendi, até porque como professor, durante 15 anos, no Instituto Militar de Engenharia e na Pontifícia Universidade Católica, tenho prazer em discutir as questões da Engenharia com o pessoal de modo que essa transferência de conhecimento aconteça.

Isso é importante porque, às vezes, observo que as pessoas vão ficando maduras, mas esquecem de passar para os seus colegas mais jovens aquilo que aprenderam. Quando isso ocorre, acontece uma busca do mesmo e o que importa é a busca do mais. O mesmo já está consolidado, publicado em vários papers, já foi apresentado, tem várias referências. É importante que o conhecimento esteja sempre em busca de novas tecnologias.

Nos anos seguintes, o senhor foi convidado a participar da equipe responsável pela estruturação da Empresa de Pesquisa Energética – EPE, empresa criada por medida provisória, depois convertida em lei pelo Congresso Nacional - Lei 10.847, de 15 de Março de 2004. Como foi essa experiência?

Em Furnas participava de um Comitê chamado CCPE – Comitê de Coordenação do Planejamento Elétrico, onde eu coordenava o CTET - Comitê de Estudos de Planejamento da Transmissão. Nesta época esta função era exercida pela Eletrobras e, diante do modelo que se instituiu, naquela década, para o setor elétrico brasileiro, passou a ser realizada pelo Ministério de Minas e Energia. Como eu vinha exercendo essa coordenação junto ao Ministério, pelo CCPE e o CTET, passei a ser responsável pelo planejamento de transmissão de todo o sistema elétrico brasileiro vinculado ao Ministério de Minas e Energia. Isso deu origem a Empresa de Pesquisa Energética, a EPE. Foi uma evolução quase que natural em que continuei esse trabalho de gerência no planejamento da transmissão.

Acertei o convite e me senti muito honrado com isso e trabalhei nesse esquema durante nove anos. Lá, também, participei de grandes feitos para o setor elétrico, como: a concepção do sistema de transmissão em corrente contínua das usinas do Madeira, o sistema de transmissão da Usina de Belo Monte em ultra-alta-tensão de corrente contínua que é uma tecnologia inédita no Brasil e estudos importantes como a expansão num sistema de 500kV, na interligação Norte-Sul, num momento em que começava a haver uma diversificação da nossa matriz energética, em que as usinas eólicas passaram a ter um papel importante. Ali, na EPE, desenvolvemos vários estudos da transmissão para conexão das usinas eólicas do Nordeste e do Sul do país, onde ficam as mais importantes concentrações de ventos propícios para a exploração da energia eólica. Na EPE, tanto sob o ponto de vista pessoal, quanto na perspectiva do setor elétrico como um todo vivi grandes realizações.

De lá pra cá, o senhor atuou também no italiano Cesi Brasil e, atualmente, na State Grid. Como tem visto o atual momento do setor elétrico brasileiro e a diversificação crescente dos seus agentes?

Já no ano de 2013, achei que tinha dado a contribuição de uma vida inteira ao setor público, trabalhando na Eletrosul, no Cepel, em Furnas e na EPE, quando recebi um convite para dar início a um Cesi no Brasil. O Cesi é uma organização italiana conhecida mundialmente que já tinha tentado se instalar no Brasil, mas que, naquele momento, não teve êxito. Fui, então, indicado como uma pessoa que poderia dar início a sua nova entrada no Brasil. Ali, trabalhei durante três anos, mas a consultoria no Brasil foi muito impactada pela crise econômica que já dura uns cinco ou seis anos e aquilo que eu imaginava que poderia ser uma arrancada para a instalação do Cesi no Brasil, acabou não correspondendo a realidade que imaginava.

Passados três anos, aquele sistema de transmissão da vinculada à Usina de Belo Monte de ultra alta tensão que tinha sido concebido sob minha coordenação, na EPE, foi ganho pela empresa chinesa State Grid que, sabendo da minha participação no projeto, convidou-me para a sua implementação no Brasil. Era todo um ciclo que se concluía com a minha participação nesse projeto

Pensei durante alguns meses. Essas decisões são difíceis de tomar, mas, diante do desafio que apresentava a implantação de um sistema dessa envergadura, acabei aceitando e vim trabalhar com os chineses. Em maio de 2019, faço três anos na empresa e, em meados do ano que vem, vamos ter a oportunidade de colocar em operação esse sistema de ±800 kV, uma tensão inédita no Brasil. Para mim isso coroa todo um ciclo: da gênesis do projeto até a sua finalização, um ciclo completo.

Com a mudança do setor elétrico, criou-se a EPE que é uma empresa pública, vinculada ao MME e responsável pelo planejamento energético. Essa mudança do setor propiciou a participação de agentes privados nacionais e internacionais. A China que hoje exporta tecnologia e investe muito se tornou um parceiro muito importante para o Brasil, trazendo investimentos para a infraestrutura brasileira.

Esse projeto do sistema de transmissão de Belo Monte faz parte dessa mudança, em que os agentes privados passaram a ter um papel muito importante no desenvolvimento da infraestrutura brasileira. Outros sistemas já estão sendo planejados pela EPE e serão objeto de novas licitações que virão em seguida. É nesse contexto que a State Grid tem se consolidado no Brasil.

Paralela a sua trajetória profissional, o senhor teve sempre uma atuação intensa no CIGRE-Brasil, tendo sido, inclusive, diretor presidente entre 2003 e 2007, entre outras funções assumidas. Qual a importância do CIGRE, na sua perspectiva?

Todo engenheiro que é ligado às questões tecnológicas busca participar de seminários para troca de informações, de textos e trabalhos desenvolvidos por outros colegas, não só no Brasil, como no exterior. Entrei como membro no CIGRE em 1982 e, a partir desse momento, fui fazendo uma escadinha: participei como engenheiro em grupos de trabalho, durante muitos anos, depois evolui para coordenação desses grupos, cheguei a coordenador do Comitê Brasileiro aqui no Brasil e fui seguindo uma evolução natural, até chegar a postos elevados como membro do Steering Committee, o Comitê Executivo do CIGRE, o Conselho de Administração do CIGRE-Brasil e até o cargo de tesoureiro do CIGRE Internacional, cujo mandato terminou em 2012.

O CIGRE para mim representa tudo aquilo que pude absorver em termos de intercâmbio técnico-científico com outros países. Inclusive tive a oportunidade de trazer algumas dessas técnicas que aprendi lá fora para o sistema de Furnas. O CIGRE é uma escola. Todo o engenheiro desde a sua formação deve entrar como membro do CIGRE, porque além de ser uma escola permite esse intercâmbio técnico que não se encontra em outro lugar do ponto de vista da Engenharia Elétrica.

Sou dos maiores incentivadores de engenheiros brasileiros a participarem dessa instituição que trafega na busca do intercâmbio técnico, na divulgação da tecnologia desenvolvida no Brasil, e no exterior, onde existem excelentes engenheiros que podem compartilhar informações nos grandes encontros promovidos não só pelo CIGRE-Brasil, mas pelo CIGRE Internacional, em seus diversos seminários e workshops.

 



CIGRE-Brasil
4/12/2018