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24 de março de 2019
Fórum das Mulheres do CIGRE-Brasil apresenta Carla Damasceno Peixoto - Engenheira Carioca entre o Trabalho com Linhas de Transmissão subterrâneas e a Família

Primeira de uma série a ser rememorada neste março de 2019, esta entrevista com Carla Damasceno Peixoto aconteceu em junho de 2017. Está, aí, um pouco da trajetória como engenheira de Linhas Subterrâneas da Light, onde atuou por 33 anos. Carla Damasceno compôs a Comissão Organizadora do I Fórum de Mulheres do CIGRE-Brasil, assumindo, inclusive, o papel de mediadora do evento. Em 2018, foi a vez de participar como palestrante convidada do CIGRE Women in Engeneering Forum que aconteceu ao longo da CIGRE Session 47, a Bienal de Paris 2018. Hoje, ela compõe a Chapa que concorre à Diretoria do CIGRE-Brasil, como diretora de Assuntos Corporativos.

Como se deu a sua decisão por trabalhar em um nicho de mercado tradicionalmente masculino, como o da energia elétrica? O que lhe chamou atenção na engenharia?

Interessante que num primeiro momento não me dei conta de que havia escolhido uma carreira tradicionalmente masculina, apesar de ter sido alertada pela minha mãe. Escolhi a carreira de engenharia por aprecia-la, por gostar de desafios e por ter maior aptidão na área das ciências exatas. 

Quais os caminhos que têm trilhado profissionalmente? Percebe que o fato de ser mulher afetou de alguma maneira a sua trajetória no setor elétrico?

Cursei a Universidade Federal do Rio de Janeiro escolhendo a graduação em Energia Elétrica e, em seguida, uma pós-graduação em Sistemas de Potência. Logo depois fui aprovada no concurso para ingresso na concessionária Light Serviços de Eletricidade S.A.

Nessa empresa trabalhei, por 33 anos, na implantação de linhas subterrâneas de alta tensão, inicialmente na construção e posteriormente, em todas as etapas que viabilizam este tipo de empreendimento. Hoje, atuo como consultora independente.

O fato de ser mulher me afetou ora positivamente ora negativamente, mas, no cômputo geral, mesmo as negativas, serviram para que eu aumentasse o esforço e a perseverança. Em contrapartida, cada obstáculo superado estimulava e contribuía para o meu crescimento, não só profissional.

Ainda na faculdade, quando comecei a procurar por estágio, estive num estaleiro para me candidatar a uma vaga, juntamente com um grupo de colegas. Na entrevista ouvi logo de primeira: “Como uma mulher quer trabalhar num estaleiro? Não aceitamos mulheres aqui". Nesse momento fiquei indignada, mas, encarei como desafio e segui em frente. 

Quando passei no concurso para o meu primeiro emprego, fui uma das primeiras a escolher a vaga na área de construção de linhas de transmissão. Essa área acabou sendo escolhida, também, por mais dois engenheiros. Como só havia duas vagas, fomos submetidos a nova entrevista e avaliação. Nesse momento pensei que os dois engenheiros seriam os escolhidos, mas surpresa, fui selecionada! Na entrevista final com o superintendente, ele falou: “Você preferiu a área de construção e foi aprovada. Gostaria apenas de pedir que você não deixe ninguém lhe transformar em mera auxiliar. Vá em frente! Aprenda tudo o que for necessário e apresente relatórios periódicos, já que a transmissão subterrânea não é de domínio comum”. Esta frase foi um grande estímulo e, desde então, passei a estudar os artigos técnicos e a acompanhar os serviços de campo, sem me importar com o horário de seu término. Assim fui adquirindo experiência teórica e prática no assunto. 

Depois disso, passei também por experiências que não foram tão generosas assim... mas, se as mulheres querem ultrapassar os limites a elas impostos, precisam de trabalho, perseverança e flexibilidade para se adaptarem às situações.


Como tem sido conciliar as demandas do trabalho com aquelas que ainda costumam recair sobre a mulher, na vida privada?

Bem, mais uma vez surge a palavra esforço aliada as de persistência, organização e praticidade. Difícil, mas, possível. A dedicação profissional é grande, mas, todo meu tempo livre é dedicado à minha família.

Nem sempre foi fácil, o coração apertava às vezes, como quando recebi a primeira história escrita por um dos meus filhos que dizia o seguinte: “...aí o rei e a rainha saíram e foram trabalhar...”. Em contrapartida o resultado foi compensador, tenho dois filhos gêmeos, hoje médicos formados - motivo de grande orgulho. Desde cedo me falavam que queriam salvar vidas...


Há mais mulheres no setor elétrico? Acha que as mulheres trazem uma contribuição diferenciada?

A mudança ainda é um pouco lenta, mas, sim, a presença feminina vem crescendo no setor a medida que as empresas vão reconhecendo e valorizando a mulher. Acho que sim, a mulher traz uma visão diferente, porém, complementar a visão masculina, melhorando e enriquecendo o resultado numa equipe de trabalho. Certa vez ouvi um psicólogo convidado a palestrar num grande evento do setor elétrico destacando o quanto era positivo para os resultados de uma empresa a participação feminina nas suas decisões.

Como conheceu e se aproximou dos trabalhos do CIGRÉ? Em que medida o CIGRÉ-Brasil tem sido importante para a sua atuação profissional?

Pouco tempo após o meu ingresso na Light S.A., comecei a participar de trabalhos que eram apresentados nos eventos do CIGRÉ-Brasil, até começar a participar efetivamente do Comitê de Estudos de Cabos Isolados e a apresentar palestras relativas as minhas experiências no campo. A partir daí resolvi, tornar-me sócia individual do CIGRE e aprofundar a relação que tinha com a instituição como sócia coletiva que tinha através da empresa.

O CIGRE me proporcionou uma visão técnica ampla através da troca de experiências nacionais e internacionais, e contribuiu em muito para o meu desenvolvimento e trajetória técnica e profissional.

Você participou dos Fóruns de Mulheres que o CIGRÉ Internacional proporcionou nas últimas duas Bienais. Que impressões teve desses eventos? Acha importante que o CIGRÉ-Brasil se engaje nesse debate?

Achei muito relevante o depoimento de engenheiras de sucesso que apresentaram suas trajetórias pessoais e profissionais, as dificuldades e o preconceito que enfrentaram da própria família. Essas mulheres deram um belo testemunho. São depoimentos importantes porque servem de inspiração e incentivo a carreira de todas as engenheiras. A Dra. Ruomei Li, por exemplo foi Secretária Geral da Sociedade Chinesa de Energia Elétrica (CSEE) e é atual membro do conselho da Associação de Mulheres em prol da Ciência e da Tecnologia da China (CWAST), além de ter sido uma das fundadoras da Comissão das Mulheres Engenheiras na China, em 2012. Outro depoimento marcante foi o da Mrs. Khayakazi Dioka, engenheira chefe de transformadores e reatores na África do Sul.

Considero de suma importância que o CIGRÉ–Brasil, como disseminador de conhecimentos técnicos, também esteja atento às questões sociais, as quais podem interferir nas técnicas. E o CIGRE Brasil deu um grande passo se engajando no movimento mundial de inclusão e valorização da mulher no trabalho a partir da criação do “I Fórum de Mulheres do CIGRÉ-Brasil” que ocorrerá, no dia 25 de outubro, ao longo do XXIV SNPTEE.

No interior de uma subestação com as equipes de montagem de blindada e linhas subterrâneas.



CIGRE-Brasil
11/3/2019