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18 de outubro de 2019
Um Pesquisador com Forte Atuação no CIGRE – Entrevista com Nelson Martins

"Temos que interagir internacionalmente, participar de diversos fóruns, negociar bem e de forma estratégica, com foco em questões de longo prazo que resultem em melhorias ao nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) sem nos deixarmos levar por predileções menores"

Formado em Engenharia Elétrica, pela Universidade de Brasília em 1972, o sul-mato-grossense Nelson Martins seguiu carreira acadêmica no Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade de Manchester - Inglaterra, onde realizou seu mestrado e doutorado. De volta ao Brasil dá início a uma longa e produtiva carreira no CEPEL - grupo Eletrobras, o mais importante centro de pesquisa em energia elétrica do país,onde, atualmente, também exerce a função de assistente da Diretoria de Pesquisas e Inovação.

Sua intensa atividade no IEEE e no CIGRE resultaram em inúmeras publicações (grande parte reunida em seu site), além de reconhecimentos registrados em vários prêmios, tais como Prabha Kundur Power System Dynamics and Control (2015), concedido pela Sociedade de Potência e Energia (Power and Energy Society - PES) do Instituto de Engenharia Elétrica e Eletrônica (Institute of Electrical and Electronics Engineers - IEEE) ou o convite para Membro Estrangeiro da Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos (National Academy of Engineering - NAE), além dos prêmios concedidos pelo CIGRE Internacional (2007) e pelo CIGRE-Brasil (2018).

São também resultados da sua dedicação à pesquisa a sua eleição como Membro Estrangeiro da Academia Nacional de Engenharia dos EUA (NAE) e da Academia Nacional de Engenharia do Brasil (ANE), outras duas instituições em que atua. Entre tantas atividades, Nelson Martins ainda participa, junto com colegas professores de diversas universidades do Brasil e do exterior, da coorientação de pesquisadores nos níveis de mestrado e doutorado.

Na entrevista que se segue, um pouco mais sobre essa trajetória e sobre a importância das instituições a que Nelson Martins tem dedicado parte importante de seu trabalho.

Poderia nos contar sobre a sua experiência como pesquisador sênior do setor elétrico brasileiro?  

Nos primeiros 30 anos de minhas atividades profissionais  dediquei-me, sobretudo, à parte técnica e científica da Engenharia Elétrica, na especialidade de Sistemas Elétricos de Potência, principalmente na área de dinâmica e controle. Nestes últimos 18 anos, no entanto, tenho me envolvido de modo crescente, em atividades que transcendem à Engenharia de Sistemas de Potência, observando os desafios da Engenharia como um todo, sobretudo, aqueles que mais importam à Engenharia nacional. São tentativas modestas de promover uma maior autonomia tecnológica para o país, pois é nela que se apoia a soberania nacional. Temos que interagir internacionalmente, participar de diversos fóruns, negociar bem e de forma estratégica, com foco em questões de longo prazo que resultem em melhorias ao nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) sem nos deixarmos levar por predileções menores.

Após 40 anos de trabalho dedicado ao CEPEL, vejo que ainda posso ter um papel importante. No momento, acabei de concluir a redação de artigo sobre o papel essencial dos sistemas de transmissão de grande capacidade e a longa distância, para promover um desenvolvimento mais sustentável tanto no Brasil, como no exterior. Este artigo foi preparado após receber convite do conselho editorial da revista-mãe do IEEE, a Proceedings of the IEEE,  para expressar o meu ponto de vista a respeito da Grid of Microgrids defendida por alguns como sendo a solução ideal para os sistemas de potência do futuro. Como discordo deste ponto de vista, o artigo, escrito em colaboração com outros dois colegas do CEPEL – André Diniz e João Barros -, chama-se A grid of microgrids: is it the answer? Este trabalho me parece ser um dos primeiros do CEPEL em que as áreas de Planejamento Energético e de Redes Elétricas têm igual participação. O resultado foi interessante e espero que seja logo publicado. 

Um importante trabalho que realizou foi o desenvolvimento do  programa computacional PacDyn (Análise e Controle de Oscilações Eletromecânicas em Sistemas de Potência) que é, hoje, utilizado mundialmente, inclusive por países, como o Japão, resistentes à importação de tecnologia estrangeira. Poderia nos contar algo sobre o processo de desenvolvimento e internacionalização desse programa, entre outros no CEPEL?

Meu trabalho no CEPEL teve várias fases, entre as quais a criação do PacDyn e de seu precursor, o Autoval, foram, talvez, as de maior relevância. Fui coorientador dos doutorados de Leo Lima, Herminio Pinto, João Alberto Passos, Julio Cesar Ferraz, Sergio Gomes e Sergio Varricchio, além de teses de mestrado de outros pesquisadores, tais como Wo Wei Ping e Ricardo Mota Henriques, todos eles envolvidos em vários projetos importantes do Departamento de Redes Elétricas do CEPEL (DRE). Além disso, tive participação, como consultor, em maior ou menor grau, em outros projetos do mesmo departamento, coordenados por Ricardo Diniz, Albert Melo, Sergio Granville e Flávio Alves, também integrantes ou ex-integrantes do DRE.

Atualmente, quais são as frentes de pesquisa e projetos a que se dedica?

Além de assistente da Diretoria de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do CEPEL, gostaria de registrar meu engajamento na Academia Nacional de Engenharia, onde pude conhecer colegas ilustres de diversas especialidades e adquirir uma visão mais abrangente e atual da engenharia nacional, grandes projetos já realizados ou ainda por realizar, bem como as implementações corretas ou inadequadas de alguns deles. Ali, sobretudo, lutar pela valorização da Engenharia Nacional e de seu papel estratégico na promoção do desenvolvimento sustentável deste país continental. Atualmente, com o apoio da Academia Nacional de Engenharia (ANE), da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da National Academy of Engineering (NAE, a academia norte-americana)  estamos organizando o primeiro workshop da América Latina do Grand Challenges Scholar Program, um esforço desenvolvido pela NAE para a preparação dos engenheiros do futuro, para que possam  enfrentar melhor os Grandes Desafios da Engenharia. Este workshop será  realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em agosto deste ano, sob a coordenação da professora Virginia Ciminelli (UFMG) e a minha, com o apoio das três academias mencionadas.

No final do ano passado, o sr. recebeu o título de Membro Honorário do CIGRE-Brasil, ao lado do professor José Sidnei Colombo Martini que se somou a um dos grandes reconhecimentos do CIGRE Internacional, o Technical Council Award 2007 do Study Committee C4 - System Technical Performance. Trata-se de reconhecimentos de sua expressiva colaboração à instituição, em que atuou como diretor e como coordenador de diversos grupos de trabalho internacionais.  Poderia nos contar como tem sido a sua experiência junto ao CIGRE?

Minha experiência no CIGRE-Brasil e no CIGRE Internacional tem sido das mais enriquecedoras e gratificantes. O CIGRE-Brasil é a associação profissional a que mais me dedico em  âmbito nacional. Internacionalmente, participo ativamente do CIGRE e da Power and Energy Society, pertencente ao IEEE. Nestas duas associações, já atingi ou estou perto de atingir os 40 anos de membresia. Aprendi muito nas forças-tarefas e grupos de trabalho internacionais destas duas associações, inclusive atuando em GTs, cujas responsabilidades e atribuições eram de ambas as associações. Focando nas minhas atividades no CIGRE, elas se iniciaram quando tive um artigo técnico aceito para apresentação na Bienal de Paris de 1982. Este artigo descrevia técnicas computacionais que estavam sendo implantadas no PacDyn, cujo desenvolvimento se iniciava naquela época. Foi a primeira vez que fiz uma apresentação em nível internacional. Senti as pernas tremerem ao subir no palco do imenso anfiteatro da Université d’Assas. Nesta conferência, pude claramente perceber o protagonismo da delegação brasileira de então que só foi aumentando ao longo destas décadas, com o engajamento, cada vez maior, dos engenheiros brasileiros nas Forças Tarefas e nos Grupos de Trabalho do CIGRE nacional e internacional.

Pessoas de muita visão e competência se dedicaram ao CIGRE e à formação do CIGRE-Brasil. Homenageio todos eles, na pessoa de Jerzi Lepecki, presidente do CIGRE-Brasil e, posteriormente, do CIGRE internacional que foi, efetivamente o fundador do CEPEL, do qual foi diretor executivo por quase duas décadas. Na celebração dos 45 anos do CEPEL, lá estavam as principais lideranças do setor elétrico, entres eles o Sr. Ministro de Minas e Energia, o mui competente almirante Bento Albuquerque, mas ninguém arrancou mais aplausos da plateia do que o Dr. Lepecki, como nós,  respeitosamente, o chamamos.

Dentre os diretores do CIGRE-Brasil, ao longo dessas décadas, pude estabelecer laços de amizade com a maioria, porque estávamos, todos nós, imbuídos do espírito de colaboração profissional e fraternidade, sentimento reinante no CIGRE-Brasil, no trabalho voluntário que lá desenvolvemos. Destaco a atuação do Conselho de Administração da instituição composto por engenheiros ilustres e executivos das concessionárias e demais empresas do setor elétrico que zelam pelo CIGRE-Brasil no plano profissional, administrativo e financeiro. Aprendi muito participando destas reuniões.

Deixo o meu agradecimento especial à atual Diretoria do CIGRE-Brasil, na pessoa do seu presidente, o  amigo Josias Araujo, pela escolha do meu nome para esta premiação, que tanto me honra, sobretudo por ter o Prof.Sidnei Martini como companhia.

 

 



CIGRE-Brasil
28/3/2019