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22 de maio de 2019
Uma carreira pautada no Ensino, na Pesquisa e na Inovação - Entrevista com o Prof. José Sidnei Colombo Martini -

O engenheiro José Sidnei Colombo Martini, mais conhecido no CIGRE-Brasil como Professor Sidnei, foi reconhecido como Membro Honorário do CIGRE-Brasil pela sua contribuição e ativa participação. Conselheiro Efetivo, na gestão 2015-2018, e novamente eleito na gestão 2019-2023, o professor tem se dedicado, nos últimos dois anos, junto ao Comitê de Estudos C6 - Sistemas de Distribuição e Geração Distribuída, à organização do I e II Seminários Nacional CIGRE de Energia Solar Fotovoltaica, assim como ao desenvolvimento do Fundo Universitário do CIGRE-Brasil, no âmbito do Conselho de Administração.

Professor Sênior da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Sidnei Martini tem, no entanto, uma importante trajetória anterior, pautada pela atuação na gestão de grandes empresas e na sua dedicação à Educação Superior e à Pesquisa que, certamente, influencia a sua atuação atual na universidade e no CIGRE.

O senhor se formou na mesma escola em que construiu sua carreira acadêmica, no ensino e na pesquisa – a Escola Politécnica da USP, ou “Poli”, como é conhecida – onde realizou seu mestrado, doutorado, livre-docência, atingindo a posição de Professor Titular. Foi na Poli que o senhor iniciou sua carreira ligada à computação, atuando no projeto do primeiro computador brasileiro. Poderia nos contar um pouco como foi a sua chegada e o desenvolvimento dos seus estudos na Engenharia Elétrica?

Minha vocação para a Engenharia Elétrica se manifestou na adolescência. Quando ainda estudante do então chamado Ginásio, comecei a montar amplificadores de som, na época da chegada da alta fidelidade - Hi-Fi e do som estereofônico. Eu sentia que a eletricidade e, particularmente a eletrônica, teria um papel fundamental no desenvolvimento de todas as demais áreas do conhecimento. Isso acabou me levando a prestar exames vestibulares no Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA e na Poli, no final de 1965. Aprovado, acabei escolhendo a Poli. No terceiro ano da graduação iniciei um estágio na área de computadores, com o objetivo de conhecer o software e o hardware desses equipamentos, pois se apresentavam como o que de mais avançado havia na área tecnológica da Engenharia Elétrica. Nesse estágio reconheci que além de meu interesse pela tecnologia, a administração da tecnologia também me interessava.
Ao concluir o meu curso de Engenharia Elétrica, ênfase Eletrônica, ao final de 1970, fui convidado para participar da implantação de um centro de computação acadêmico, na Escola de Engenharia Mauá, em São Paulo, época em que o termo “informática” sinalizava o futuro tecnológico que conduziria à Engenharia da Computação.
Nessa época, já docente da Mauá, paralelamente, iniciei meu programa de Mestrado na Poli, dentro do qual, numa das disciplinas de pós-graduação, foi lançado à turma o desafio de projetar e construir um computador. Isso parecia avançado demais, mas o estímulo e engajamento de professores e gestores da Poli fizeram com que esse desafio culminasse na realização do “Patinho Feio”, nome dado ao projeto. Essa realização e sua repercussão nos meios tecnológicos, fez com que a Secretaria de Planejamento da República e o Ministério da Marinha contratassem o grupo realizador do Patinho Feio, em um projeto voltado a realização do primeiro computador a ser industrializado no Brasil. Para tanto foi criada a Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia – FDTE que teve como projeto nº 1 o Projeto G-10, nome dado produto computacional, que foi industrializado pela empresa Computadores Brasileiros – COBRA.
Foi dentro desse projeto que realizei minha Dissertação de Mestrado, focada no Traçado Automático de Rotas de Circuito Impresso, em 1975.

Ao longo de sua carreira como professor e como profissional de engenharia, o senhor passou por experiências que resultaram na fundação do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Telebrás - CPqD em Campinas, além da passagem por empresas como a SABESP e CTEEP, pode nos contar um pouco como foi sua trajetória nas empresas do setor?

Terminado o projeto G-10, tive a oportunidade de me engajar no projeto da primeira central telefônica computadorizada brasileira, por encomenda da Telebrás. Ao término desse projeto bem-sucedido, foi definida a criação de um centro de pesquisas, o CPqD, em Campinas, que assumiu a fase de desenvolvimento industrial dessa central telefônica, além dos projetos de pesquisa e desenvolvimento na área de telecomunicações.
Permanecendo na FDTE que operava nas instalações da Poli, tive a oportunidade de continuar minha carreira docente e de me engajar num projeto de telemetria para monitorar e antecipar as situações de cheias em regiões baixas do município de São Paulo. A experiência adquirida nesse projeto me levou a ser contratado pela SABESP, companhia responsável pelo saneamento básico em São Paulo, para participar da especificação, aquisição e implantação de um Sistema de Supervisão e Controle do Abastecimento de Água Tratada na Região Metropolitana de São Paulo - RMSP. Essa atividade, no projeto chamado SCOA – Sistema de Controle Operacional do Abastecimento foi a base do meu Doutorado na Poli, em 1982, onde continuava cursando minha pós-graduação. O projeto consistia na aplicação de computadores e microcomputadores em processo de tempo real espacialmente distribuído. Na SABESP, tive a oportunidade de chefiar as operações do Centro de Controle da Operação do Abastecimento da RMSP, o que me deu a vivência do tempo real aplicado à distribuição de água tratada para 37 municípios que compunham a RMSP. 

A experiência adquirida no projeto SCOA levou-me a ser o Diretor de um projeto de Supervisão e Controle Hierárquico para a transmissão de energia elétrica no Estado de São Paulo. O cliente era a CESP. Já na iniciativa privada e em paralelo com minha carreira acadêmica, concluí esse projeto, o que me levou a ser convidado para ser o responsável pela informática de um projeto de desenvolvimento do submarino nuclear da Marinha. Nessa época concluí minha livre-docência na Poli, em 1992, com o tema de Sistemas de Supervisão e Controle para a Área Elétrica.

Prosseguindo na carreira acadêmica, paralelamente, fui chamado a assumir a diretoria de uma empresa de automação industrial que, posteriormente, foi incorporada à uma empresa multinacional de engenharia elétrica, na qual foi desenvolvido o sistema de supervisão e controle da distribuição da LIGHT, no Rio de Janeiro.
Em 1999, fui convidado à presidência da Empresa Paulista de Transmissão de Energia – EPTE e da Companhia Paulista de Transmissão de Energia Elétrica – CTEEP, com o objetivo de unifica-las. Essa unificação ocorreu em 2001. Em 2002 tornei-me Professor Titular no Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Poli.  Em 2006 a CTEEP foi privatizado e eu permaneci na sua presidência até 2009.
De 2009 até hoje, venho atuando na Poli, em funções administrativas e docentes, tendo sido Prefeito do Campus da Capital da USP e Chefe do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais por quatro anos, dentre outras atividades.

Como se deu sua chegada e crescente envolvimento com o CIGRE-Brasil? Pode nos falar um pouco do seu envolvimento com a proposta do Fundo Universitário do CIGRE-Brasil? 

No ano de 2000 a CTEEP assumiu a organização do XVI Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica - SNPTEE. Como presidente da empresa e reconhecedor da importância do evento, dei prioridade aos preparativos desse seminário, que ocorreu em 2001. O XVI SNPTEE foi muito significativo e colocou esse evento num patamar elevado de realização e de resultados, que vem sendo mantido elevados, desde então.
Desde essa época, prestigiei e induzi o corpo técnico da CTEEP que atuasse nas atividades do CIGRE-Brasil e CIGRE internacional, como forma de contribuir e receber contribuições técnicas na área da transmissão da energia elétrica. Essa foi uma atitude estratégica e estou seguro de que foi uma das decisões acertadas que fizeram da CTEEP uma empresa líder e que apresentou resultados reconhecidos no mercado nacional e internacional, sendo matéria da revista Harvard Business Review.
Foi o contato com o CIGRE-Brasil que me aproximou do CEPEL, do qual fui Conselheiro do Conselho de Administração e Conselho Consultivo, onde conheci desenvolvimentos tecnológicos que apliquei na CTEEP, como Sistema SAGE que equipa os centros de controle da CTEEP até hoje.
Logo que tive contato com a gestão do CIGRE-Brasil passei a participar de várias atividades, dentre elas a de Planejamento Estratégico. Em 2015 passei a fazer parte do Conselho de Administração do CIGRE-Brasil e como tal, fui me engajando cada vez mais com os desafios dessa organização.
Como resultado do Planejamento Estratégico do CIGRE-Brasil, havia um Projeto de aproximação do CIGRE-Brasil com universidades e centros de pesquisa. Uma das atividades a ser realizada, dentro desse programa era a criação de um Fundo Universitário CIGRE-Brasil, para apoiar iniciativas como de concessão de bolsas, edição de livros, realização de estudos específicos.
O trabalho de desenvolvimento do Fundo Universitário tomou um tempo longo, pois foi realizado simultaneamente a outras atividades que mereceram igual atenção e regramento, como o Fundo de Viagens. Ao final, em 2017, o Fundo Universitário foi oficializado e já apoiou a edição de dois livros, além de fomentar todo o processo de aproximação com o meio acadêmico e de pesquisa, como a criação dos Assessores Científicos, Orientandos Acadêmicos e Especialistas, nos vários Comitês de Estudos do CIGRE-Brasil.

No CIGRE-Brasil, o senhor tem tido forte atuação junto ao Comitê de Estudos C6 - Sistemas de Distribuição e Geração Distribuída, tendo estado à frente da organização das duas edições do Seminário Nacional CIGRE de Energia Solar Fotovoltaica - SENCESF, que aconteceu em São Paulo, em 2018 e, em março desse ano, em Belém do Pará. Poderia nos fazer um balanço dos debates realizados nessas duas ocasiões?

Numa reunião realizada durante o XXIV SNPTEE, em Curitiba, em outubro de 2017, a diretoria do CIGRE-Brasil me solicitou que organizasse um seminário, sob a liderança de um CE, que fosse realizado nos moldes de um evento acadêmico e que tivesse a participação de empresas, formando um tripé: Academia-CIGRE-Empresa. Nessa mesma reunião foi escolhido o tema Energia Solar Fotovoltaica, em face da grande expansão desse tipo de geração de energia elétrica no Brasil e no Mundo.

Com esses elementos, promovi a programação do I Seminário Nacional CIGRE de Energia Solar Fotovoltaica (I SENCESF), que foi realizado em São Paulo, em março de 2018, nas instalações do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo - IEE/USP, com a presença de 152 participantes. Nesse evento, além da participação do Comitê de Estudos - C6, foi muito importante a participação do Prof. Roberto Zilles do IEE/USP.

A partir de então, o SENCESF passou a ter realização anual e o II SENCESF contou com a participação, na organização, do atual Coordenador do CE-C6, Prof. Alexandre Rasi Aoki, da Universidade Federal do Paraná – UFPR e do Prof. João Tavares Pinho da Universidade Federal do Pará - UFPA.

Em março de 2019 realizou-se o II SENCESF, nas instalações do Centro de Tecnologia da Eletrobras-Eletronorte, em Belém do Pará, com a presença de 186 inscritos.

O evento teve como objetivo a avaliação do balanço da evolução tecnológica da energia fotovoltaica, a difusão do estado da arte da pesquisa e desenvolvimento e a prospecção dos avanços científicos e industriais relacionados.

O nível e qualidade do evento superou, em muito, diversos eventos de mercado, destacando-se as experiências, soluções e desafios no atendimento de sistemas isolados.

O II SENCESF trouxe assuntos importantes para o debate, desde a visão da pesquisa, tecnologia e mercado da geração solar fotovoltaica, passando pelas questões de industrialização, comercialização e incentivos para o setor solar fotovoltaico, delineando um cenário cada vez mais promissor para a área de distribuição de energia.

As principais aprendizagens alcançadas com o debate realizado no evento incluíram: a importância da geração solar fotovoltaica nos projetos de atendimento de sistemas isolados, em operação conjunta com sistemas de armazenamento de energia em baterias; o crescimento expressivo desta modalidade de geração de energia elétrica e os impactos da atualização da Resolução Normativa ANEEL 482/2012; as tendências de tecnologias futuras, como os painéis fotovoltaicos orgânicos e as tecnologias de baterias, para o aprimoramento das aplicações dos painéis solares e a perspectiva de redução de custos; as possibilidades reais de incentivos e o amparo regulatório para o desenvolvimento de projetos de geração de energia solar fotovoltaica.

Nesse evento, além da participação do CIGRE-Brasil, das Universidades citadas, do Centro de Pesquisa da Eletrobras-Eletronorte, houve a participação de quatro empresas do setor: SUNEW, YASKAWA, BYD e COMERC. Houve  ainda a participação da ANEEL, BNDES, ABINEE, de associações de energia solar fotovoltaica, a ABENS e a ABSOLAR e de duas empresas concessionárias de energia elétrica: Eletronorte e a CELPA.

A realização da próxima edição, já confirmada, será: III SENCESF 2020 – Florianópolis – SC – com o apoio da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, em março de 2020

De uma maneira geral, é muito importante que entidades como o CIGRE-Brasil, que se dedicam, sem fins lucrativos, ao desenvolvimento do Setor Elétrico Brasileiro, possam ser apoiadas em suas iniciativas de promoção do conhecimento, como é feito nos 16 Comitês de Estudo, e de divulgação do conhecimento aplicado, como é feito no conjunto de eventos realizados pelo CIGRE-Brasil, que tem como carro chefe o SNPTEE, cuja próxima realização será em novembro deste ano, em Belo Horizonte.
A propósito, nesse SNPTEE haverá uma parte inovadora, para a promoção dos jovens profissionais da área elétrica, os “Young Members”. Eles passarão a ter mais um espaço para expor seus trabalhos. Essa nova parte do seminário tem o nome de New Generation Network Showcase – NGNS e foi inspirada no que já ocorre no evento Bienal do CIGRE em Paris, e passará a fazer parte do SNPTEE, a partir de agora.



CIGRE-Brasil
10/5/2019