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17 de setembro de 2019
Conheça a nova Diretoria do CIGRE-Brasil - entrevista com Iony Patriota

"O CIGRE sempre foi minha fonte principal de referência técnica, pela qualidade e atualidade de suas publicações."

Motivado, por isso, a contribuir com a instituição, esse engenheiro nordestino iniciou sua carreira com nada menos que 40 anos dedicados à CHESF onde passou pela Manutenção e Comissionamento, por atividades técnico-normativas e de planejamento. Cumprida esta primeira etapa, Iony Patriota atua como consultor e gestor da Tecnix Engenharia e Arquitetura, como membro atuante do Comitê de Estudos B5,  tendo sido o seu coordenador internacional e, desde abril deste ano, é o Diretor Técnico do CIGRE-Brasil eleito para atuar na gestão 2019-2023, ao lado de Saulo Cisneiros - diretor presidente, Carla Damasceno Peixoto - diretora de assuntos corporativos e Antônio Simões Pires - diretor financeiro. Na entrevista abaixo, Iony Patriota nos fala um pouco da contribuição que vem dando ao setor elétrico brasileiro:

Minha vida profissional no setor elétrico iniciou-se como estagiário de engenharia na CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco) e posteriormente como engenheiro, aprovado em concurso público em 1973. Anteriormente, ainda como estudante, trabalhei como eletricista em uma concessionária de automóveis, como operador noturno de computadores, e posteriormente como programador. Devo à CHESF grande parte da minha formação profissional, complementada por Especialização em Sistemas de Informação, Mestrado em Engenharia de Produção e Doutorado em Processamento de Energia. Neste período, atuei progressivamente na CHESF como gerente de serviço regional, nas atividades executivas de manutenção e comissionamento; gerente de divisão em atividades técnico-normativas; gerente de departamento nas atividades de planejamento e como assessor especializado nas áreas de proteção, automação e telecomunicações. Esta sequência e diversidade me permitiram adquirir conhecimentos técnicos e habilidades gerenciais importantes para minhas atividades atuais como consultor e gestor.

E quanto ao CIGRE? Como se deu sua aproximação com a instituição em que foi coordenador do Comitê de Estudos B5 de Proteção e Automação e onde, em função de sua expressiva colaboração, recebeu  o título de Membro Honorário do CIGRE-Brasil?

O CIGRE sempre foi minha fonte principal de referência técnica, pela qualidade e atualidade de suas publicações. Isto me motivou, já em 1996, a apresentar meu primeiro artigo na Sessão Bienal de Paris, quando o Subcomitê B5 (Proteção e Automação) era coordenado pelo Eng.Gerhard Ziegler da Siemens, autor do livro clássico Numerical Distance Protection: Principles and Application. Entretanto, foi a partir da realização do V SIMPASE no Recife, quando fui indicado como coordenador executivo pela CHESF, que intensifiquei minha participação no CIGRE-Brasil, incentivado pelo engenheiro Saulo Cisneiros, na época coordenador da Comissão Técnica. A participação no Comitê de Estudos B5, sob a coordenação e incentivo do eng. Jorge Miguel Ordacgi, resultou em minha primeira experiência de coordenação internacional em 2007, como coordenador do Working Group B5.32 (Functional Testing of IEC 61850 Based Systems). Posteriormente, fui convidado pelo coordenador internacional do SC B5, eng. Ivan de Mesmaeker, da ABB, para atuar como Special Reporter do Tema Preferencial Life Cycle Management of Protection and Control Systems da Sessão Bienal do CIGRE em 2008. A isto seguiu-se o convite para ser Secretário Internacional do Subcomitê B5, função que exerci por quatro anos, durante os quais fui agraciado com o prêmio Technical Committee Award do CIGRE. A eleição para Coordenador Internacional foi uma consequência natural, em disputa que vencemos com o apoio decisivo do CIGRE-Brasil, cargo que exerci por seis anos. Como reconhecimento, recebi a comenda de Sócio Honorário do CIGRE-Brasil e, posteriormente, a medalha e título de Sócio Honorário do CIGRE Internacional, na solenidade de abertura da última Sessão Bienal em Paris, em agosto de 2018.

Com atividade internacional intensa o senhor acaba de receber o título de Membro Honorário, também, do CIGRE Internacional onde foi, até a última bienal, Chairman do Study Committee B5 – Protection and Automation. Pode nos falar das experiências internacionais que essa função lhe proporcionou?

A função de coordenador do Subcomitê B5 me trouxe muitas oportunidades de participar como convidado em eventos internacionais ou de coordenar os colóquios de proteção e automação do nosso subcomitê, além da minha participação nas reuniões do Conselho Técnico do CIGRE. A convite dos respectivos Comitês Nacionais, proferi várias palestras de abertura e tutoriais e coordenei Sessões Técnicas em eventos regionais e internacionais na Eslovênia, Croácia, Índia, China, Rússia, Argentina, México, Austrália, Portugal, Brasil, Malásia, Moçambique e Coreia do Sul. Como parte de minhas funções, representei o Subcomitê de Proteção e Automação nas reuniões do Conselho Técnico do CIGRE na África do Sul, França, Holanda, Noruega, Espanha, Canadá, Inglaterra, Japão, Áustria, Alemanha, Peru, Turquia e Estados Unidos. Seguindo a tradição do CIGRE, coordenei os colóquios do SC B5 em diferentes países, entre eles o Brasil, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Espanha, Suíça e China. Particularmente me orgulho em participar do Grupo de Trabalho World Bank-CIGRE para ajuda aos países da África Subsaariana, com trabalhos voluntários em nossa área de conhecimento. Além da experiência profissional, estas atividades me proporcionaram uma imensa satisfação em representar o Brasil, construindo uma extraordinária rede de contatos internacionais, que fazem parte do meu acervo técnico-profissional, alavancando também as atividades de consultoria de minha empresa (Tecnix Engenharia e Arquitetura) no Brasil e no exterior.

Da Bienal de Paris o senhor destacaria alguma nova tendência mundial em sua área de trabalho? E quanto a participação brasileira, destacaria trabalhos nacionais que lhe pareceram importantes?

Grande parte da evolução atual dos sistemas elétricos decorre de desenvolvimentos que estão ocorrendo na área de Proteção e Automação, com o uso intensivo de eletrônica de potência, recursos computacionais e telecomunicações. Todos as inovações recentes em Smart, Mini, Micro e Nano Grids, bem como a integração de recursos de geração e armazenamento distribuídos e o funcionamento, em tempo real, de mercados abertos de energia dependem do suporte de recursos digitais de controle e automação distribuída, além de redes de telecomunicações confiáveis. Nestas áreas, destaca-se a rápida disseminação dos sistemas de monitoramento, proteção e automação de longo alcance (Wide-Area Monitoring, Protection and Control Systems), integrando modernos dispositivos de medição sincronizada de fasores e sinais amostrados, alimentando sistemas de decisão remotos. Como tendência consolidada, destaca-se a adoção universal do protocolo IEC 61850 para automação e proteção e do padrão CIM (Common Information Model) nos centros de controle e interfaces corporativas com os mercados de energia. O Brasil se destaca, neste cenário, ao assumir atualmente a coordenação de dois Grupos Internacionais de Trabalho que definirão modelos dos recursos distribuídos à base de inversores (WG B5 65 – Protection System Support by Response of Inverter-Based Sources), bem como o padrão para definição de requisitos funcionais de sistemas futuros (WG B5.64Methods for Specification of Functional Requirements of Protection, Automation and Control).

Dono da empresa de consultoria TECNIX, o senhor tem acompanhado de perto a evolução do setor elétrico brasileiro. Como avalia os rumos que vem sendo tomados pelo setor? Nesse contexto, qual a importância de uma entidade como o CIGRE?

Seguindo a tendência mundial, o Brasil tem investido na diversificação de sua matriz energética, notadamente na expansão das fontes distribuídas. Após o boom da geração de energia eólica, responsável atualmente por expressiva fração da geração nacional, espera-se uma revolução similar na utilização da energia solar, abundante na região Nordeste e uma adoção crescente do transporte público e privado movido a energia elétrica. Todas estas evoluções trarão como consequência o aumento da complexidade, com impacto na controlabilidade e resiliência da rede elétrica. Isto forçará uma revisão dos critérios de planejamento e redistribuição da responsabilidade pelo controle operacional e expansão da rede, incluindo a variável ambiental, com aumento da participação ativa da engenharia consultiva, prestadores de serviços e consumidores. Apenas com o desenvolvimento de sofisticados mecanismos de controle e participação distribuída, suportados por ferramentas avançadas de análise e projeto e adequado suporte regulatório será possível ao país enfrentar estes desafios. O CIGRE-Brasil, por sua tradição e competência técnica, apresenta-se como fórum nacional ideal para promoção e catalisação do conhecimento necessário para este fim.

Poderia nos falar um pouco da importância dessa função para o funcionamento da nossa instituição, assim como quais as suas expectativas e propostas para essa gestão?

Participar da direção do CIGRE-Brasil é não apenas motivo de orgulho e satisfação, mas uma chance de contribuir para o crescimento do Comitê Nacional, em retribuição às oportunidades que tive nesta instituição. Nossa gestão será pautada pela valorização das iniciativas e atividades técnicas dos 16 Comitês de Estudo, viabilizando o intercâmbio de conhecimento técnico nacional e internacional. Em complemento, e seguindo a vocação natural do CIGRE-Brasil, concentraremos esforços na implementação de uma grade permanente de treinamento e na inserção das atividades de pesquisa no setor elétrico, como fontes adicionais de educação e desenvolvimento profissional, além do aumento da receita financeira do Comitê Nacional, como parte do planejamento estratégico do CIGRE-Brasil.

 

 



CIGRE-Brasil
30/8/2019