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17 de novembro de 2019
Elisa Bastos - a Segunda Diretora da ANEEL, em 21 anos

Filha de um engenheiro eletricista que trabalhava na Companhia Energética de Goiás, a CELG, Elisa Bastos seguiu os passos do pai e como Analista de Sistemas desenvolveu sua carreira no setor elétrico a partir daquela mesma empresa. 

A carreira acadêmica a partir do programa de Planejamento de Sistemas Energéticos da UNICAMP, no entanto, levaria Elisa Bastos às "abordagens computacionais para leilões combinatórios" e, a partir daí, às experiências junto ao Ministério de Minas e Energia e, finalmente, à ANEEL, onde, desde dezembro de 2018, com apenas 35 anos de idade, desempenha função importante na diretoria da casa.

Como se deu a sua entrada no setor elétrico?

Eu sempre tive uma relação muito próxima com o setor elétrico. Meu pai seguiu sua carreira como engenheiro eletricista na CELG, hoje Enel Distribuição Goiás. Por tudo isso o setor elétrico sempre esteve, presente, de alguma forma na minha vida. Foi justamente na ENEL Goiás (então CELG) que eu tive o meu primeiro contato profissional com o setor.

Naquela época, como Analista de Sistemas, trabalhei em alguns projetos importantes para a companhia. Desde meus primeiros momentos na empresa, decidi que meu caminho seguiria pelo setor de energia elétrica. Já são mais de quinze anos de estudos e trabalhos no setor, sempre com o mesmo entusiasmo.

Goiana, formada em Análise de Sistemas e com experiência na Companhia Energética de Goiás, a CELG, hoje ENEL Distribuição Goiás, como foi sua escolha para o trabalho com Planejamento de Sistemas Energéticos, enfocado nas suas pesquisas de mestrado e doutorado na Engenharia Mecânica da UNICAMP?

A partir do momento em que eu tive o meu primeiro contato profissional com o setor elétrico, rapidamente percebi a natureza complexa que envolve todas as atividades desse setor. Senti então necessidade de estudar, de desenvolver um conhecimento técnico e acadêmico mais aplicado ao setor, visto que minha graduação me permitiu ter a base do raciocínio lógico e matemático, e seus desdobramentos práticos em sistemas de informação, que são horizontais e multidisciplinares.

O Planejamento de Sistemas Energéticos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) sempre foi uma referência acadêmica para o setor e, por isso, foi tranquila a escolha. A oportunidade de concluir o mestrado e o doutoramento sobre abordagens computacionais para leilões combinatórios, me permitiu estudar os leilões de energia nova, os ambientes de comercialização de energia, teoria de jogos e a teoria de leilões em si.

Em 2011, seu mestrado investigou a Metodologia e a simulação de leilão simultâneo-combinatório para novos empreendimentos de geração de energia elétrica. Na sua opinião, de que forma a metodologia dos leilões tem influenciado o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro?

Os leilões são uma instituição milenar para alocação de recursos, leiloar um bem a quem melhor precifica, maximizando o bem-estar social. É uma importante ferramenta para combater a desigualdade de renda, por meio de compras públicas.

No Mestrado e no Doutorado, estudei e apliquei a teoria de leilões ao caso brasileiro, abordando aspectos centrais dos leilões combinatórios, que permitem extrair sinergia entre produtos que são bens complementares. Por exemplo, hoje o leilão de energia é realizado utilizando, de maneira simplificada, uma estrutura de leilão simultâneos de três ou quatro produtos, a depender das fontes de onde provém a energia.

Os leilões combinatórios permitem a submissão de lances em pacotes, onde, caso o vendedor se sagre vencedor em um conjunto de empreendimentos, pode vir a oferecer um preço mais competitivo. É um mecanismo em que o vendedor pode capturar mais demanda, garantindo uma maior parte do mercado, e os compradores, (que no caso dos leilões de energia são as concessionárias de distribuição) conseguem extrair mais renda, em prol dos consumidores finais que se beneficiariam desta sinergia.

Os leilões utilizados no setor garantem uma impressionante ampliação do sistema, quer no segmento de geração, quer no de transmissão, além de garantir alocar concessões aos concessionários que melhor atendem aos quesitos de cada certame, no setor de distribuição ou na renovação das outorgas de geração.

No setor de geração, para exemplificar de forma mais concreta, contratamos desde 2005, em trinta leilões de energia nova, e um dezena de leilões de fontes alternativas e de energia de reserva, cerca de 1.300 empreendimentos, 90 GW de capacidade instalada, 245 bilhões de Reais de investimentos (cerca de 107 bilhões de dólares americanos), com a criação de cerca de um milhão e trezentos mil empregos estimados para sua implantação. Além de garantir o suprimento de energia elétrica é importante vetor de desenvolvimento econômico em todas as regiões do país.

Em agosto de 2015 foi convidada a integrar a Assessoria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério de Minas e Energia. Como foi a experiência de realizar na prática, nos desenhos dos leilões, o que foi objeto de suas pesquisas na Academia?

Essa experiência foi encantadora. Depois de seis anos estudando os leilões na Unicamp e aplicando parte do conhecimento em projetos de P&D (pesquisa e desenvolvimento), a oportunidade de devolver à sociedade o que fora investido na minha formação acadêmica foi de uma realização ímpar. Por cerca de três anos apliquei os conhecimentos acadêmicos na prática, auxiliando a aprimorar a sistemática dos leilões, que não deixa de ser um algoritmo de alto nível de como se dá a contratação de energia.

Os leilões são processos que envolvem as cinco instituições do setor, o Poder Concedente, na figura do MME, o regulador, a ANEEL, o planejador, a EPE, o operador do sistema, o ONS, e, por fim, o operador do mercado, a CCEE, que se encarrega desde 2004 a implementar o sistema do leilão e garantir que tudo ocorra na mais perfeita ordem, sem qualquer intercorrência. Esse é o nosso histórico, quinze anos realizando leilões de forma segura.

Um dos principais aperfeiçoamentos recentes introduzido na sistemática dos leilões é um bom exemplo desta faceta cooperativa entre as instituições, com a implementação dos leilões com etapas contínuas (abertas a lances de preço a serem submetidos pelos vendedores) no lugar das etapas uniformes (onde o preço era definido pelo sistema). Participei e contribuí intensamente ao lado de outras pessoas experientes e abertas à melhoria que se fez necessária. O resultado foi extraordinário, o aprendizado, rico e intenso.

Desde dezembro de 2018, aos 35 anos de idade, assumiu a função de diretora da Agência Nacional de Energia Elétrica, a ANEEL, como tem sido a sua atuação e a sua percepção do setor a partir da perspectiva dessa agência?

Perceber e atuar na regulação do setor tem sido uma experiência incrível. Eu já tinha passado pela percepção do agente regulado, na distribuição, da academia, inclusive do P&D, e do governo. Na regulação os desafios têm sido enormes. A missão da ANEEL é proporcionar condições favoráveis para que o mercado de energia elétrica se desenvolva com equilíbrio entre os agentes e em benefício da sociedade. Essa também tem sido a minha missão como Diretora da Agência e é um enorme desafio.

Na ANEEL, contamos com uma equipe técnica qualificada e eficiente. Como esse apoio qualificado, me cabe manter aberto o diálogo com os agentes e com a sociedade, revisitar e aprimorar regras e aplicá-las aos casos concretos, sempre com transparência, coerência e foco no interesse público. Decidir, sopesar, reconsiderar, reavaliar, são ações rotineiras que demandam uma atuação séria e equilibrada que deve ser marcada pela coragem e pela postura ilibada.

Em seu discurso de posse, fez questão de frisar que em 21 anos de existência da ANEEL, aquela era apenas a 2ª vez em que uma mulher assumia a função de diretora, observando, ainda, que do quadro total de colaboradores daquela agência apenas 21% são mulheres e conclamando a todos a necessidade de criarmos condições para a ampliação da participação das mulheres em posições de liderança, na medida em que é  “na diversidade que está a nossa fortaleza”. Como avalia a participação feminina, desafios ultrapassados nesses seus 15 anos de setor elétrico brasileiro? Qual o recado gostaria de passar para outras jovens mulheres que almejam integrar o Setor Elétrico?

Eu acredito que a participação feminina tem evoluído ao longo desses meus quinze anos de setor elétrico. Vejo, cada vez mais, mulheres competentes e que têm assumido posições de liderança no setor.

Também percebo uma maior diversificação no perfil dos agentes, quando participo dos principais eventos, com jovens profissionais mais abertos às mudanças pelas quais o setor e de energia passa ao redor do globo com o triplo D: descentralização, descarbonização e digitalização. A transição energética no cenário atual depende das pessoas que liderarem a mudança, tanto nas instituições setoriais como nas empresas incumbentes e nos novos negócios que surgem nesta economia em constante mudança.

Como disse em meu discurso de posse, é na diversidade que está nossa força. No entanto, nós mulheres ainda somos minorias no setor e no avanço da transição energética. Mas, temos sim avançado com reconhecida competência e liderança e é essencial que esse avanço acelere ao longo dos anos. Quanto às jovens mulheres que almejam integrar o setor, eu gostaria de dar um recado singelo: estudem, estudem muito! Quando se sentirem cansadas, desmotivadas, estudem mais. Tenham força e coragem, tracem metas, e, o mais importante, acreditem em vocês e busquem realizar seus sonhos. Os elétrons seguem as leis da Física, sem se importar com o gênero dos engenheiros e engenheiras que projetam os sistemas de potência. Os mercados de energia e de commodities funcionam melhor se bem cumprirmos nosso papel, enquanto mulheres e profissionais. Coragem é a palavra-chave.



CIGRE-Brasil
25/10/2019