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8 de agosto de 2020
Entrevista Raul Balbi Sollero - Diretor de P&D do Cepel

Raul Sollero é engenheiro eletricista pela UFMG e Mestre em Ciências em Dinâmica de Sistemas Elétricos de Potência pela Coppe/UFRJ. Ingressou no Cepel, como pesquisador, em 1982, tendo desenvolvido diversos projetos e produtos nas áreas de simulação, proteção, controle e automação de sistemas elétricos, publicados em dezenas de artigos nacionais e internacionais.

Assumiu a gerência do Departamento de Automação de Sistemas em 2000 e a Diretoria de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em 2017.

Raul é membro do CIGRE desde 1986, tendo coordenado o Comitê de Estudos CE-B5 (Proteção e Automação) entre 2008 e 2016, ano em que recebeu o título de Distinguished Member do SC B5, sendo admitido como Sócio Honorário do CIGRE-Brasil em 2019.

Como se deu sua aproximação com o CIGRE e em especial com o Comitê de Estudos B5? Como foi estar à frente, durante 8 anos, da coordenação e, inclusive à frente da principal realização do comitê, o STPC – Seminário de Proteção e Controle?

A diretoria do Cepel, em especial no período de sua estruturação, sob a direção-geral do Dr. Jerzy Lepecki, sempre teve a visão de trazer renomados especialistas internacionais para orientação de pesquisas relevantes para o país e para a capacitação de seu pessoal. Entre estes especialistas estava o Dr. Ayhan Türeli, então referência internacional em proteção de sistemas elétricos. Na época (década de 1980) estava em curso uma forte evolução nas tecnologias de proteção, quando se migrava de equipamentos eletromecânicos para sistemas eletrônicos (conhecidos como relés estáticos). Logo a seguir (década de 1990), tem início um novo ciclo, quando da migração da tecnologia de relés estáticos para sistemas micro processados. Tendo ingressado no Cepel para integrar a equipe do Dr. Türeli, passamos a trabalhar em diversos projetos na área de proteção, no desenvolvimento de infraestrutura para simulação e testes e de produtos baseados nessas novas tecnologias, com sua transferência para a indústria nacional.

Minha aproximação com o CIGRE, em especial, do CE-B5 (na época, Comitê 34) deu-se, então, de forma natural, considerando minha atuação profissional, os benefícios percebidos de acesso aos maiores especialistas internacionais em minha área de interesse e os fortes vínculos do Cepel com o CIGRE, cujas presidências eram acumuladas pelo Dr. Lepecki.

Essa participação no CIGRE ganha, entretanto, um impulso maior a partir de 2004, quando o renomado Eng. Jorge Miguel Ordacgi Filho assume o CE-B5 e me convida para atuar como seu secretário. Sob sua coordenação, iniciamos um forte trabalho de reestruturação do CE-B5, com quatro focos bem definidos: (i) fortalecer a interação entre a comunidade brasileira de proteção e automação e os grandes especialistas internacionais do CIGRE na área; (ii) atuar como vetor para a internalização, no país, das tecnologias sofisticadas e emergentes na época, por meio de workshops e treinamentos especializados, ministrados por especialistas estrangeiros; (iii) tornar mais abrangente e representativa a base de participantes do CE, agregando aos tradicionais profissionais de proteção e controle das concessionárias, representantes da indústria, academia e centros de pesquisa; e (iv) resgatar, fortalecer e consolidar o Seminário Técnico de Proteção e Controle (STPC), originalmente um evento do já extinto GCOI, trazendo-o para o âmbito do CIGRE-Brasil, o que foi atingido com grande sucesso a partir do apoio e atuação do seu coordenador técnico na época, o Eng. Fernando Aquino Viotti.

O senhor tem uma gama de feitos com relação à sua atuação no CIGRE, assim como outros pesquisadores do Cepel. Sejam os do passado, como nosso ex-presidente Jerzy Lepecky (1983-1987), sejam os mais atuais, como o seu sucessor na coordenação do CE B5, Marco Antonio Macciola Rodrigues, além do ex-diretor geral, Marcio Szechtman, entre outros. O que o senhor destacaria?

Em 2004, em nossa primeira participação em uma Bienal sob a coordenação do Eng. Jorge Miguel, tivemos a oportunidade de assistir à primeira demonstração de interoperabilidade de funções de proteção executadas por equipamentos de diferentes fabricantes compondo um sistema orgânico de proteção, por meio da tecnologia IEC 61850. Tratava-se de tecnologia disruptiva, muito complexa e poderosa, que alterava radicalmente muitos paradigmas vigentes de proteção e automação, mas que era, ainda, uma arriscada aposta tecnológica. Percebemos, entretanto, o seu potencial e que tínhamos acesso direto, por meio do CIGRE, aos seus próprios mentores principais (Klaus-Peter Brand, Alexander Apostolov e Mark Adamiak, por exemplo, entre muitos outros). Resolvemos, então, apostar na sua internalização no Brasil, iniciando um programa estruturado de workshops e treinamentos ministrados por expoentes internacionais do CIGRE no tema. Esse programa teve início no período de coordenação do Jorge Miguel e adentrou pelo período em que estive à frente do CE B5 (entre 2008 e 2016) e prossegue, até hoje, em seus desdobramentos (aplicações de barramentos de processo, por exemplo), agora sob a coordenação do colega Marco Antonio Macciola Rodrigues.

Como evidências do sucesso dessa iniciativa podemos lembrar que o Brasil foi um dos países pioneiros na adoção da tecnologia IEC61850, hoje disseminada no mundo, além de revelar talentos tais como o do nosso atual Diretor Técnico, Dr. Iony Patriota de Siqueira, que conquistou credibilidade para assumir a coordenação de um importante Working Group (WG) internacional da área, qualificando-o, ainda, para assumir a própria coordenação do Study Committee B5 internacional.

Ainda nesta linha de ação do CE B5 para internalização de tecnologias emergentes, podemos citar os programas de qualificação em temas como medição sincrofasorial, concentração de dados sincrofasoriais e suas aplicações em proteção sistêmica, princípios modernos de proteção etc. Em decorrência dessa atuação do CIGRE, o Brasil passou a ser um ator relevante inclusive na produção de soluções baseadas nessas tecnologias. No Cepel, por exemplo, tivemos a oportunidade de fomentar vários desenvolvimentos que integram, hoje, seu portfólio de produtos em uso no sistema interligado nacional.

Qual o papel do CIGRE que o senhor destacaria para o setor elétrico? Em sua opinião, qual a relevância que esta instituição sem fins lucrativos tem (ou poderia ter) para os profissionais das empresas, instituições, centros de pesquisas e até mesmo universidades?

O papel que o CIGRE-Brasil tem desempenhado, mas que sempre pode ser incrementado, é o de impactar positivamente o setor elétrico em prol da sociedade como um todo, por meio da inclusão e interação de especialistas que compreendam o valor do compartilhamento de conhecimento e da soma de esforços para o crescimento de todos. A atuação do CIGRE-Brasil tem cunho, em termos amplos, informacional e educacional, promovendo o avanço no estado da arte e a troca de conhecimento. Aos integrantes e voluntários do CIGRE cabe não apenas sonhar com um futuro melhor, mas trabalhar para construí-lo, com ética, inovação e excelência.

À frente da diretoria de P&D (Diretoria de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação), do Cepel e, tendo em vista o contexto atual no qual está inserido o setor elétrico, quais os principais desafios a serem superados? De que forma a participação nas atividades do CIGRE poderiam contribuir para o alcance de resultados exitosos nessa busca de superação?

Como aponta o Prof. Edson Watanabe (Coppe/UFRJ), “há 50 anos praticamente não existiam engenheiros-doutores (cientistas) no país. Existia apenas a graduação, e esperava-se que os engenheiros aprendessem a fazer pesquisa por conta própria. Poucos se tornaram cientistas das engenharias. A solução, no âmbito acadêmico, foi estruturar os cursos de pós-graduação e programas de iniciação científica, que aumentaram enormemente a eficiência do sistema. Mas, o que o doutor de hoje aprende a fazer, essencialmente, na Academia? Teses, artigos e geração de conhecimentos”.

Segundo levantamento do Prof. Hernan Chaimovich (USP), neste aspecto, o Brasil não está mal, com índices de citações/artigos expressivos, particularmente em engenharia elétrica.

Entretanto, a inovação vai além da produção científica, devendo alcançar soluções que não apenas tenham tido sua viabilidade demonstrada, mas que tenham sido aprovadas pelo mercado. A fim de estabelecer um índice para inovação a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA) propôs o conceito de TRL (Technology Readiness Level, ou Nível de Amadurecimento da Tecnologia), hoje norma ABNT - NBR ISO 16290. Ocorre que poucas instituições no Brasil atuam nos níveis TRL 6 a TRL 9, considerados de inovação (as empresas procuram atuar acima do TRL 9). O Cepel é uma destas poucas instituições, procurando preencher o gap entre a produção científica e sua transformação em produto de mercado, com aplicação efetiva e aprovação dos usuários. Entretanto, o arcabouço institucional do país é carente de instrumentos eficazes para apoiar e viabilizar instituições como o Cepel, o que lhe impõe, talvez, o seu maior desafio.

Alguns dados: o Brasil é, hoje, a 8ª economia do mundo e o 13º em produção científica. Entretanto, somos, ainda, o 69º em inovação, 79º em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o 84º em consumo per capita de energia elétrica.

É claro que o CIGRE-Brasil tem papel fundamental para melhorar esse painel, ao ajudar na identificação dos produtos e soluções efetivamente demandados pelo Setor, ao promover a interação entre nossos especialistas de diferentes áreas de atuação (academia, centros de pesquisa, concessionárias e indústria) com expoentes mundiais em inovação real em suas áreas e ao oferecer um ambiente propício ao estudo e proposição das melhores soluções para essas demandas.

Atualmente testemunhamos a demanda da sociedade por um sistema elétrico mais sustentável e flexível, capaz de acomodar uma matriz de geração mais diversificada, não inteiramente controlável, além de maior protagonismo na relação com as concessionárias. Tudo isso a partir de uma infraestrutura de grande porte, parte da qual com ativos que já se aproximam do final de sua vida útil.

O CIGRE-Brasil está atento a essas transformações, como pontua Marcio Szechtman, hoje na estratégica posição de seu Technical Council Chair: “Os Setores Elétricos, em uma base mundial, estão experimentando transformações cruciais em termos de novas tendências resultantes de mudanças nos papéis que os diferentes agentes estão assumindo. Essas alterações podem ser verificadas tanto no nível de Distribuição (Micro-Grids) quanto no nível de maior tensão - o segmento de transmissão (chamado de Overlaying ou Macro-Grids).” O CIGRE-Brasil, por meio de seus 16 Comitês de Estudos, que abrangem praticamente todas as áreas de conhecimento relacionadas ao Setor Elétrico, tem papel central no suporte técnico necessário para viabilizar essas transformações.

No caso do Cepel, os resultados desse papel do CIGRE-Brasil ficam demonstrados de forma muito concreta, ao constatarmos sua participação maciça em praticamente todos os eventos do CIGRE-Brasil, com destaque para a participação consistentemente majoritária (em número de inscritos e trabalhos aprovados) no nosso evento maior, o SNPTEE. Isso tem sido essencial para a identificação e desenvolvimento de produtos e soluções de referência em temas estratégicos, completamente alinhados às reais necessidades do Setor, tais como modelos para otimização de nosso despacho energético, ferramentas eficientes para simulação e planejamento da operação elétrica (incluindo suporte para o recente renascimento de nosso sistema de transmissão em HVDC), operação de tempo real (incluindo tecnologias como IEC 61850 e medição sincrofasorial), amplo suporte laboratorial, tanto para pesquisa (em smart-grids e ultra-alta tensão, por exemplo) quanto para apoio à evolução de nossa indústria e ferramentas poderosas para projetos de linhas de transmissão e para o monitoramento e o gerenciamento de ativos, além de suporte à integração de novas fontes renováveis (eólica e solar, por exemplo), considerando eficiência energética.

O CIGRE-Brasil está com a incumbência de trazer os jovens (estudantes e profissionais iniciantes) para a sua rede de intercâmbio e conhecimentos. Qual mensagem você deixaria para esses jovens engenheiros e engenheiras ingressando no campo do setor elétrico?

Essa é uma diretriz absolutamente necessária, que deve ser perseguida com persistência e vigor, usando abordagens que considerem a visão tipicamente generosa dos jovens e seu natural pendor para buscar e superar desafios. A esses futuros líderes devemos deixar claro que o CIGRE oferece uma variedade de perspectivas instigantes para incentivar a interação e inclusão, além de viabilizar o compartilhamento de insights durante inúmeros eventos focados em tecnologias emergentes e seu papel em promover o avanço da humanidade.



CIGRE-Brasil
27/1/2020